Axé para o presidente do STF, Joaquim Barbosa. Valeu, Zumbi!

Editorial - Dulce Tupy

Eu fazia parte do Corpo de Jurados da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, no Desfile das Escolas de Samba, em que se comemorava 100 anos da Abolição da Escravatura: 1988. No sambódromo lotado, criado pelo gênio de Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e Leonel Brizola, muitas escolas tratavam do tema da escravidão no Brasil, uma das mais perversas do mundo e a penúltima a se extinguir, atrás apenas de Cuba, último país a reconhecer o direito à liberdade dos escravizados que vieram da África, na esteira do colonialismo europeu. Mas só a Vila sacudiu o público, de uma forma que não deu para conter a emoção! Com o enredo Kizomba, a Vila deu um show expondo as raízes profundas da nossa ancestralidade.

Desde a resistência armada do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, onde morreu heroicamente o guerreiro Zumbi, há mais de 300 anos, até os dias de hoje, muita luta se passou para que chegasse ao topo da principal Corte de Justiça no Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF), o negro Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu, primogênito de 8 filhos, de pai pedreiro e mãe dona de casa. Aos 16 anos, “Joca”, apelido de infância, foi para Brasília, onde trabalhou na gráfica do jornal Correio Braziliense e estudou; estudou muito! Literalmente, Joaquim queimou as pestanas para terminar o segundo grau e se formar em Direito na Universidade Nacional de Brasília. De 1976 a 79, foi Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, tendo trabalhado em Helsink, na Finlândia e, de volta ao Brasil, foi advogado do Serpro, até 1984. A partir daí ganhou o mundo.

Procurador da República concursado, licenciou-se para estudar na França, onde fez mestrado e doutorado na Universidade de Paris II, em 1990 e 93. Em seguida tornou-se professor concursado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sem perder as oportunidades que a vida lhe oferecia, foi visiting scholar na Universidade de Columbia, em Nova York, de 1999 a 2000, e na Universidade da Califórnia, de 2002 a 2003. Estudou idiomas estrangeiros no Brasil, Inglaterra, Estados Unidos, Áustria e Alemanha. Fluente em francês, inglês, alemão e espanhol, toca piano e violino desde jovem.Tendo atuado no Ministério Público, foi indicado para o STF, em 2003. É o primeiro ministro reconhecidamente negro do STF, pois antes só compuseram a Corte um afrodescendente escuro, Hermenegildo de Barros, e um claro, Pedro Lessa.

No país das desigualdades sociais e raciais como é o Brasil, não é mais um negro, um afrodescendente, que chega ao alto da pirâmide social, como chegou o atleta Pelé, o sambista Paulo da Portela, o senador Abdias do Nascimento, os músicos Gilberto Gil e Martinho da Vila, a atriz Ruth de Souza e tantos outros e outras que honram o país com seus talentos. O ministro Joaquim Barbosa é a parte boa da nação que acredita nas instituições democráticas e na honradez. Os votos fulminantes que proferiu durante o julgamento do “Mensalão”, que o tornaram uma celebridade, enchem de orgulho os brasileiros e brasileiras que começam aos poucos a entender a enorme contribuição de Zumbi, no nosso processo de emancipação.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.