Show dos homens puros que são acusados injustamente

Opinião - Silênio Vignoli

É muito engraçada, inusitada, às vezes até ridícula, a extensa lista de argumentos a que recorrem os advogados dos mensaleiros para sensibilizar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e atacar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel: inquisição, nazismo, novela “Avenida Brasil”, desempenho do Flamengo no campeonato brasileiro, histórias bíblicas, Teoria da Relatividade, Grécia Antiga e até o Código de Hamurabi, de quase 4 mil anos, vigente na antiga Mesopotâmia e que pregava a lei do “olho por olho, dente por dente”. Tem, inclusive, discurso machista de advogado de defesa que chamou uma ré de “mequetrefe”, outra de “ignorante política” e até Kátia Rabelo , dona do Banco Rural, descrita por sua defesa como “uma bailarina sem vocação para dirigir o banco”. Seria trágico se não fosse cômico. Chegaram ao cúmulo de, cinicamente, sustentar que o mensalão é imoral, mas não ilegal, numa sequência de manifestações para tentar provocar nos ministros do STF a estranha sensação de que mensalão (R$ 101 milhões desviados) não existiu, sendo apenas o nome de um seleto grupo que reúne todos os homens puros desta República injustamente acusados por diversos crimes, dentre os quais, o de formação de quadrilha. Só fica faltando nos convencerem de que a única coisa limpa neste país é o dinheiro lavado.

Há também depoimentos hilariantes de réus como, por exemplo, o do ex-presidente da Câmara, deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), único réu do mensalão que é candidato nestas eleições, a prefeito de Osasco (SP). Ao confirmar o segundo encontro com Marcos Valério, que havia negado anteriormente, João Paulo alegou que se encontraram para “discutir a política do país”. Embora muitos doutos detentores do título “reconhecido saber jurídico” garantam que isto não chega a ser um crime de lesa-pátria, apesar de envolver o nome deste pobre país em maracutaias, no mínimo tem que ser considerado crime de desacato à autoridade por tentar agredir a inteligência da Suprema Corte. Os personagens descritos pelos advogados positivamente não combinam com os encontros secretos em quartos de hotel, carros-fortes cruzando Brasília com dinheiro de fonte ilícita, saques nas bocas dos caixas por ordem de um empresário chamado Marcos Valério, que dava as cartas na política nacional sem ser dirigente partidário, membro do governo ou político eleito.

Por outro lado, não é razoável admitir que todo esse esquema tenha sido montado apenas por um homem de fora do sistema de dominação petista e um mero tesoureiro desprovido de qualquer poder político. A principal conclusão a que se chega com a história contada pela defesa é que se José Dirceu não tinha nada a ver com o esquema de compra da base aliada, então a linha de comando sobe para Lula, que era o presidente da República na ocasião, como alguns ministros já cochicham reservadamente. Aliás, Lula só foi salvo da acusação no mensalão pelo tamanho poder que Dirceu alardeava. Tanto poder que, mesmo após sair do governo e ser cassado, continuou a dar as cartas no partido como continua até hoje. Torna-se cada vez mais nítido o grau de dificuldade, tanto para negar quanto para minimizar o grande esquema de corrupção montado pelo PT travestido de caixa dois.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.