Rio+20 pulveriza os rumos que a Rio-92 projetou

Editorial - Dulce Tupy

Tudo mudou e nem parece que 20 anos se passaram. Todos nós que participamos e estamos vivos para contar, temos + 20 anos hoje e o mundo em que vivemos é outro. Em 92, a internet estava dando os primeiros passos no Brasil ; era um luxo alguém possuir um notebook. Só estrangeiros chegavam carregando novidades e alguns executivos brasileiros, com seus telefones celulares enormes e caríssimos. Em 20 anos demos um salto em tecnologia, mas o que ganhamos com isso? Certamente, tempo e dinheiro. Mas o ambiente melhorou? Ficamos mais felizes?

Naquela época o conceito de desenvolvimento sustentável ainda estava se consolidando na mente dos antenados com a ecologia. A própria palavra ecologia ainda não era tão conhecida e meio ambiente também. A fronteira entre os conceitos não eram muito claras. A Rio-92, que definiu o desenvolvimento sustentável foi uma pajelança, encontro de muitas raças, políticos, cientistas e leigos, mulheres, índios, negros, religiosos… A Rio-92 foi, como diria o antropólogo Darcy Ribeiro, uma pajelança no meio de um triângulo com 3 vértices: um no Rio Centro onde se reuniram os chefes de estado, outro no Aterro do Flamengo, onde se reuniu a sociedade civil organ izada e mais um na oca indígena construída na zona oeste da cidade, em Jacarepaguá. Além do exército ostensivamente nas ruas, os batedores correndo em suas motos velozes, o feriado na cidade, a imprensa se concentrava no prédio do IAB, Instituto dos Arquitetos do Brasil, no Flamengo, de onde disparava notícias para todo o mundo.

Hoje, a Rio+20 é a Rio-92 levada ao extremo. O desenho da atual Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre o desenvolvimento sustentável, agora, em 2012, 20 anos depois daquela Rio-92, é um triângulo pulverizado que se multiplicou em milhares de vertentes, faces de tantas tendências, em tantas dimensões, que é impossível visualizar todas ao mesmo tempo. A Rio+20 é uma moderna Torre de Babel, onde vários idiomas se cruzam. Vestimentas de todos os tipos revelam diversas culturas. Interesses de várias matizes circulam pelos ares e recaem sobre os documentos que serão assinados, mas sabe-se lá quando serão colocados em prática efetivamente.

E o que faz toda essa gente? Milhares de pessoas discutem a sustentabilidade, a redução da pobreza e a economia verde, só para ficar nos principais temas. Na Rio+20 está em jogo o futuro da humanidade, dos oceanos, das florestas, da terra, da vida no planeta, da biodiversidade, dos recursos naturais, das estrelas, das religiões e até o grau de felicidade que teremos. Um encontro em Copacabana vai medir o PIF, um índice que indica o nível de felicidade dos indivíduos e povos, que se coloca em contraposição ao PIB, que só mede os índices econômicos… De 1992 a 2012, a distância entre as nações ricas e pobres ficou ainda maior. Com o atual padrão de consumo, não há hipótese de vida futura no planeta Terra. Se todos quiserem consumir como os americanos, por exemplo, morreremos engolidos pelo lixo produzido por esta sociedade que vem gerando mudanças climáticas cada vez mais catastróficas. A Rio+20 é a última chance de equilibrarmos o planeta. Vamos ver se desta vez seremos mais responsáveis.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.