Um príncipe em Saquarema

Araras

A viagem do príncipe Maximiliano de Wied à Região dos Lagos

O príncipe alemão Maximiliano de Wied esteve em Saquarema em 1815. Diante da exuberância da natureza  tropical, o príncipe Maximiliano se encantou com a fauna e a flora características da Mata Atlântica

O príncipe alemão Maximiliano de Wied esteve em Saquarema em 1815. Diante da exuberância da natureza tropical, o príncipe Maximiliano se encantou com a fauna e a flora características da Mata Atlântica

O nome completo do príncipe alemão que esteve em Saquarema é Alexander Philipp zu Maximilian Wied-Neuwied. Nascido em 23 de setembro de 1782 e falecido em 3 de fevereiro de 1867, liderou uma expedição pioneira ao Brasil, da qual resultou um livro publicado na Europa. Major licenciado do exército da Prússia, que combateu Napoleão, viajou ao Brasil em 1815, pelo Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Com problemas de saúde, em maio de 1817, o príncipe Maximiliano abandonou a expedição e retornou a Alemanha.

Durante sua longa e acidentada viagem pelo Brasil, o nobre alemão viveu emoções, descortinou belíssimas paisagens, mas passou por privações. Saindo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, embarcou sua tropa em barcos e atravessou a Bahia de Guanabara até desembarcar em Praia Grande (Niterói). De lá, passou por São Gonçalves (São Gonçalo), Serra de Inoã, Freguesia de Maricá e Ponta Negra, antes de chegar a Saquarema, de onde partiu para Araruama, São Pedro dos Índios (São Pedro da Aldeia) e Cabo Frio.

Acampando na mata, observou corujas, pirilampos e rãs, durante a noite e, pela manhã, bandos de pássaros, com cantos variados e plumagens coloridas, como o vermelho tiê, os bem-te-vis, pica-paus, pintassilgos e colibris. Penetrando a úmida Mata Atlântica, conheceu a aranha caranguejeira, morcegos, cobras e sapos enormes. Enfrentando calor e mosquitos, participava das caçadas com seus cães de raça alemã. Na densa floresta tropical, palmeiras e árvores se entrelaçavam com cipós, trepadeiras, bromélias e cogumelos. Flores de todas as cores, cactos e buganvílias encantaram o príncipe.

A floresta então constituía uma riqueza vegetal, com grandes árvores como o Jacarandá e o Pau-Brasil; nos galhos, macacos vermelhos e dourados (micos-leão-dourado), macacos berradores ou guaribas, grandes teiús, veados e porcos-do-mato. No arvoredo, cupins, formigas e insetos, incluindo a tanajura. No ar, borboletas. Nos charcos, garças, jaçanãs, quero-queros, andorinhas e anus. Nos campos, manadas de gado e carros-de-boi. Nas fazendas, porcos, galinhas, perus, galinhas de Angola, gansos e patos. Nos lagos e lagoas, melros e bagres, conchas e caracóis. Nas praias, gaivotas, andorinhas do mar, maçaricos e urubus.

Maximiliano e ÍndioChegada em Saquarema

Numa fazenda, perto de Ponta Negra, Maximiliano saboreou pela primeira vez caldo de cana, farinha, carne salgada (seca), limonada e aguardente. Avistou também papagaios, araras, arapongas, maracanãs, tucanos e periquitos. Subindo e descendo montanhas, chegou à Lagoa de Saquarema, depois de passar por brejos e moitas, plantações de mandioca, cana-de-açúcar, laranjeiras, bananeiras, mamoeiros, coqueiros, roças de feijão, milho e café. Nas margens da lagoa, encontrou pescadores e o lago, como ele chamava, “em alguns lugares tinha um cheiro desagradável”, descreve o príncipe.

“Cada casa possui uma fossa cavada no terreiro, que serve como cisterna, a água da lagoa sendo muitas vezes suja. Esses pescadores andam muito à frescata, como todos os brasileiros, usam largo chapéu de palha, calças leves e folgadas e camisa, deixando completamente nus os pés e o pescoço. Todos carregam um afiado punhal à cintura. Esta arma é de uso geral entre os portugueses, mas é muito perigosa, dando frequentemente lugar a assassinatos (…), continua ele.

“A venda situada nas margens do lago é mantida por toda aquela gente, e os lucros são divididos entre eles: não é preciso dizer que os viajantes pagam aí mais caro que alhures. A uma légua mais ou menos desse lugar, fica a freguesia de Saquarema, grande aldeia, ou antes pequena vila, com uma igreja”, relata Maximiliano.

Capa do Primeiro Tomo“Não longe da freguesia, ergue-se sobre a praia uma colina, onde estão a igreja, o cemitério e o posto telegráfico. Subimos a colina ao pôr-do-sol: que cena grandiosa e sublime contemplamos então a nossa frente, o oceano imenso, espumejando nos sopés do monte em que estávamos; (…) Aos nossos pés a freguesia de Saquarema, e, à esquerda, a costa, aonde as vagas vinham rebentar num tremendo rugido. Esse enorme cenário, iluminado pelos últimos raios do sol agonizante, e aos poucos esbatido nas brumas do crepúsculo, despertou em nossas almas a saudade da pátria longínqua. Encostados numa sepultura, perto de um montão de crânios empilhados debaixo da cruz de um muro musgoso, ficamos a cismar silenciosamente”, relembrou com saudades da Alemanha…

Deixando o centro de Saquarema, o príncipe percorreu dunas litorâneas e extensos pântanos, num terreno arenoso, coberto de coqueiros guriri, chegando à noite na fazenda Pitanga, que tinha uma espécie de castelo antigo, onde teria havido um convento, com uma velha igreja. Com essa breve descrição, o príncipe Maximiliano registrou pioneiramente Saquarema, em sua passagem pela Região dos Lagos. Foi um dos primeiros viajantes a descrever os habitantes, a paisagem e o meio ambiente do município.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.