O rato roeu o saco do bebum na calçada e outros casos de polícia

Plantão de Polícia - AG Marinho

O rato roeu o saco do bebum na calçada

Cheio de fome, Fragoso, que estava tampado de goró, enfiou a cara num bucho de mortadela, queijo e pão velho e, mesmo sabendo que tudo estava fora do prazo de validade, mandou pra dentro. Pra rebater ainda tomou duas talagadas de meio copo de tequila e, sem cueca e com as pernas arreganhadas, caiu dormindo na calçada de sua casa, bem na frente de uma boca de esgoto. Lá pras madrugas, o cheiro do resto do rango espalhado atentou a ratalhada que, ao invadir a área, devorou não só as migalhas dos alimentos, mas subiu pelas pernas largas da bermuda e se fartou de roer o saco do bebum adormecido. O sol já vinha raiando quando acordou e percebeu o estrago. De um lado comeram quase todo, do outro sobrou algumas pelancas e uns fiapos de pentelho. Desesperado procurou recursos médicos. Faltando pelanca pra costurar o saco fizeram um cata-cata nas proximidades, alinhavaram o que sobrou e colocaram um curativo de gaze conhecido como suspensório de culioneira.

Passado o susto, medicado e usando a mesma bermuda das pernas largas, caminhou arreganhado e pegou um ônibus de volta para casa. No interior do coletivo sentiu um vácuo e um tranco nas tripas. Um solavanco, um estampido e dois estrondos inundaram o coletivo com uma espécie de sopa de diarréia que escorreu pelo corredor e empesteou o veículo. Alguns passageiros se evacuavam pelas portas normais, outras acionaram as alavancas das janelas e saltaram pelas saídas de emergência. O ônibus foi levado para garagem para ser lavado, higienizado e desenfeccionado. Fragoso foi jateado com mangueira de pressão no posto lava a jato e levado para casa de ambulância usando uma fralda geriátrica.

Promessa de corno

Já passava de meia-noite quando o telefone tocou e Delfino ficou sabendo que era corno desde quando sofreu o acidente de moto, ocasião em que tomou uma traulitada nas vizinhanças do umbigo para baixo. Primeiro o bilau ficou em coma induzido, depois continuou profundamente adormecido sem induzimento, até que morreu murcho desenterrado, porém brocha para todo o sempre. Desgostoso da vida, chamou os amigos mais íntimos anunciou que o suicídio seria durante na Semana Santa, mas resolveu adiar para o feriadão do dia do trabalhador, caso não fosse encontrada uma solução para o problema.

Quase no prometido dia do divórcio com a vida, os amigos de Delfino, todos muito chegados numa sacanagem, resolveram iniciar um livro de ouro com o objetivo de angariar fundos para comprar uma prótese peniana e pagar a necessária cirurgia “para ressuscitar o defunto”. A maioria, em lugar de dinheiro, ofereceu materiais possivelmente usados para resolver a questão: cimento branco, tala e esparadrapo, gesso de secagem rápida, argamassa rígida, forma para congelamento, receita para embalsamamento, diversos produtos para recapeamento e endurecimento, processo caseiro de mumificação e a oração do retorno do livro dos mortos. Um mui amigo ofertou a corda para o enforcamento, o outro o caixão, o translado e o enterro e o mais amigo entre todos prometeu continuar papando a viúva. Após consultar o calendário, Delfino marcou o suicídio para o dia 7 de junho. Será?

Ferroada no ovo de Páscoa premiado

Berenice brigou com o marido por falta do prometido amor eterno e das tesudas carícias preliminares usadas para esquentar a cama. Léo, que no altar jurou a esposa bilau exclusivo, eterno e sempre disposto aos compromissos conjugais, era reconhecidamente o maior galinha pulador de cercas da paróquia. A véspera da Semana Santa conheceu e se enamorou de uma chocolateira fazedeira clandestina de ovos da páscoa de fundo de quintal. Logo no primeiro encontro rolou um rasga pomba tão esfuziante que a oveira saltitante de felicidade se achou a rainha do cacau e presenteou o garanhão com um gigantesco ovo de dois quilos, com fitas, laços e papel dourado.

Para fazer média, no sábado de aleluia, juntou flores à oferta recebida e presenteou a esposa como um mimo de amor e carinho. Feliz e gloriosa, Berê quis dar um cadinho pro marido, mas ele preferiu ver um tape de 1960 de uma partida de futebol entre os times Olaria X São Cristovão. Achando que o presente poderia estar recheado de guloseimas sofisticadas, Berenice fez um buraco no ovo, enfiou os dedos e começou a procurar surpresas entre os bombons do interior da coisa quando uma ferrada dolorida acertou a cabeça do indicador. Uma série de outras picadas fez um monte de furinhos no dedo mindinho. Dentro do ovo, muito fora do prazo de validade, foi encontrada uma enorme lacraia e um montão de filhotes. Berenice, aos gritos, deu entrada no hospital com o braço todo preto e os dedos gangrenados. Léo não quis revelar o nome da doceira e nem o endereço da clandestina fábrica de chocolates.

Escaldando o peru

Caprichosa no visual, estilosa, derretida e trepadeira, Esmeralda vivia na furunfa esporádica porque não conseguia fixar parceiro pro deita e rola, quanto mais pro mesmo teto. A confusão começou quando Memelda deu uma cantada e levou pra cama o marido de Eneide, que voltou pra casa com os genitais vermelhos, inchados e muito quentes. Pra esposa ele disse que já estava há quase uma semana com “fervura no pinguelo” e que se sentia como se estivesse se derretendo por baixo. Conhecendo a fama da trepadeira partiu pra porta da estilosa e escrachou vizinha. Afirmou que todo homem que fazia um tacha-tacha na butchaca com a foguenta do bueiro aceso nunca mais voltava, porque Memelda tem as entranhas da perereca tão quente que ficou conhecida como “escalda piru”. A bofetada cantou e as duas se esgarçaram na porrada atracadas no meio da rua.

Durante o depoimento na delegacia, Eneide disse que a galinhagem de Esmeralda é genética e a fervura na perseguida é hereditária, porque a mãe era conhecida como “Xica Pomba de Fogareiro”, a avó era chamada de “Zefa do Pentelho Queimado” e o avô, Kinka, morreu com os ovos cozidos.

Perereca com catarro

A sapataria, estrategicamente inaugurada com um monte de vendedores bonitões, chamou a atenção da mulherada e a venda bombou de fazer fila. O mais gatão, aloirado de olhos verdes, sorriso claro, dentes lindos, parrudo malhado e de braguilha volumosa, causou tanta coceira nas beiçolas da perseguida que Lelica resolveu comprar sapatos usando uma microssaia, sem calcinhas. Na loja escolheu o gostosão e se esbanjou de experimentar sandálias, tênis e sapatos, mantendo o garotão ajoelhado entre as suas pernas durante o troca-troca dos calçados, mas Darlon, ainda meio atacado de uma sinusite braba, apesar de atencioso com a freguesa, não estava nem aí pra beiçudinha que só faltava abocanhar a sua cara.

Ansiosa e derretida, fazia poses de tesuda oferecida. Insatisfeita botou um sapato alto no pé esquerdo e uma sandália no pé direito e, fingindo admirar o que melhor calçava, botou uma perna no norte e outra no sul e arreganhou a perereca a mais ou menos um palmo de distância da cara do vendedor. Um cheiro de pomba rançosa misturado com banha azeda de peixe frito invadiu as narinas do coitado. De tão catingosa derreteu a sinusite do infeliz. Um espirro de plenos pulmões lançou duas caprichadas postas de catarro amarelo e langanhoso que ficaram grudadas, meio escorridas, bem dentro da lasca da goela da perereca. No susto, Lelica passou a mão na lambuzada e saiu com os dedos enmelecados da baba gosmenta. Enraivecida deu uma bofetada com a mão engosmada no rosto do vendedor, que também ficou com a cara toda cagada de catarro. No meio da confusão, ainda toda lambuzada e sem calcinhas, Lelica foi levada para delegacia onde foi autuada por agressão física e atentado ao pudor por exposição da genitália mal lavada e seborrenta.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.