Pum podre na festa de casamento e outros casos de polícia

Plantão de Polícia - AG Marinho

Pum podre na festa de casamento

Do poço da casa de Nereuda saía uma água cor de ferrugem com cheiro de bosta de gato com prisão de ventre. Não tinha jeito. Bastava tocar a bomba pra fedentina se espalhar pela casa. Na tentativa de acabar com o problema, cansou de pedir ao marido pedreiro para fazer uma cisterna e captar água da chuva. Ao estilo baiano se esparramava na rede e balançava uma soneca, enquanto a família assuntava o casamento de uma das filhas, cuja cerimônia seria realizada em casa e entre as árvores do pomar do sítio.

No grande dia, a residência decorada com flores artificiais estava entupida de convidados. Sobre a cama, cheia de presentes da 1,99, tinha centenas de vasilhames plásticos, capa para bujão de gás, pinguim de geladeira, pacotes de papel higiênico, bacia pra lavar o pé, moringa e até um penico. Quando começaram a fritar e servir os salgadinhos, alguém ligou a bomba para lavar os utensílios. Um tenebroso fedor de cocô invadiu e apodreceu o ambiente.

A avó da noiva, alérgica a merda de gato, desandou a vomitar no meio da sala. Uma das damas de honra escorregou na gosma e se destabacou no vomitado, uma mistura de macarrão, mortadela, quiabo e vinho. Uma prima sussurrou que o pai da noiva, “que tinha o rabo frouxo de tão preguiçoso”, liberou os peidos que poluíram a festa. Quando Orozimbo tomou conhecimento da acusação negou e botou a culpa na mãe do noivo “que é uma velha rasgada por baixo que vive se ventando em público”. Alguém disse que além do fedor de peido, também achava que os salgadinhos “se não estavam podres, estavam moídos”. Inconformada, a irmã do noivo convocou a família a se retirar, mas antes gritou que a casa era uma grande imundície e chamou todo mundo pra ver uma leitoa coberta de lama, deitada no meio da cozinha amamentando um monte de porquinhos.

Pelo que se sabe, foi a gota d’água pro pau comer na festa, onde a porrada choveu até a chegada da polícia, que fez diversas viagens de camburão pra carregar os desafetos. Até a noiva, de vestido branco, véu e grinalda, viajou de camburão, antes do sarrafo comer solto nos arreganhos da lua-de-mel.

Raspadinha de nascença

O marido de Eleoutéria, atochado de bichos-de-pé, comentou na birosca do bairro que ia reclamar na saúde pública porque as duas filhas e um filho do casal estavam comidos de piolhos. Acrescentou ainda que ele, a esposa e até os dois cachorros, que viviam desesperados se coçando, não foram vítimas apenas dos carrapatos e das pulgas, mas também da piolhada espalhada por um grupo de ciganos que, há muito tempo, estava acampado no bairro.

Quando os acusados pelo derrame dos insetos ficaram sabendo do falatório, resolveram pedir explicações a Tetéria, que durante o bate boca acusou a cigana mais velha de viver fazendo programas com os maridos das senhoras do bairro. Disse ainda ser ela a grande responsável pela epidemia de chatos que contaminou a pentelhada masculina e consequentemente as xerecas das esposas da redondeza. Afirmou que a filha mais nova da cigana, ao invés da dança do ventre, fazia a dança da raspadinha: durante os movimentos de sedução ia tirando os véus e ficava pelada. No final arrancava a peruca da perereca, que para surpresa dos assistentes era completamente pelada de nascença.

Durante o quebra barraco, Eleoutéria berrou no meio da rua que as barracas das ciganas eram um amontoado de redevus ambulantes, onde sexo e jogatina faziam parte das encenações de leituras de mão, adivinhações e promessas de acertos na mega sena. Se sentindo ofendida alguém lançou um penico de cocô na cara da faladeira que, ao prestar depoimento ainda estava podre fedendo a titica. O sururu acabou com nove detidos e dois presos.

Perereca com fratura exposta

Belo, faceiro e desempregado, Márcio se fez garotão de programa e passou a comercializar camisinha com direito ao bilau em anexo. Como era gostoso e faturável, tinha fila de pretendentes com lista de espera. Beijos e bocanhadas eram assessórios sexuais vendidos separadamente. Dependendo do preço contratado, o sexo era pancadão radical, insano e de predador projetado pela natureza. Se dizia mamífero veloz, dotado de pênis hidramático e testículos com tração independente nas duas bolas. Sorrateiro, esquivo e disfarçado fazia o estilo venenoso e cascavélico, pronto para o bote. Um caçador itinerante de pegadas frontal e trazeira, carnívoro e selvagem. Dilacerador, buscava e oferecia um sexo quase selvagem e à beira do orgasmo mortal.

Repentinamente desfilou de importado novo. Para pagar à vista fez saldão de intermináveis sessões de sexo. Clientes assíduas afirmaram que para aguentar o tranco comprou quilos de azulzinhas e para delírio da clientela deu conta do recado promovendo ainda mais o produto. No último dia de março, atendeu doze freguesas. Às onze da noite tomou banho, deitou exaurido e morreu infartado. Durante o enterro rolou um papo que, o agora defunto, pretendia lançar um restaurante de gastronomia sexual com banhos de língua hipnotizante e sexo com perereca com fratura exposta. No meio da papelada a polícia encontrou uma relação de clientes mensalistas que pagavam as relações amorosas com cartão de crédito e alguns nomes de trambiqueiras que pagaram as despesas com cheques sem fundos.

A vingança do fiofó arrombado

Durante o carnaval, Demétrio, 24 anos, recém-casado e de sunga, passeava na praça com a sua mulher quando passou um bloco cantando músicas de sacanagens. Um barbudo, meio bêbedo, fantasiado de piranha, aproveitou o tumulto, mirou o centro da ruela e tampou uma certeira dedada no rabo do noivinho. Dizem que a metade da sunga sumiu pelo buraco adentro. A esposa, quando viu o marido cravado no dedo, queria providências imediatas, mas o esposo se desencaixou do indicador, “sartou di banda”, disse ter manjado a cara do cutucador e jurou vingança contra o carnavalesco estuprador de fiofós heterossexuais em lua de mel.

Com as hemorróidas em prantos e lacrimejando sangue, voltou para casa mancando, ardido e hemorrágico. Fez compressas com rolhas de cortiça morna, raspa de cabo de vassoura de piaçava, pó de café coado e cavaco de casca de pau-brasil, numa infrutífera tentativa de estancar o sangue. Aconselharam lavar o rabo com suco gelado de tamarindo azedo, mas sentiu como se tivessem lhe enterrado um porco espinho nas válvulas caganicânicas. Mandaram banhar a bunda com arumbeba e chá de capim limão, mas a coisa piorou e com o derredor do pregueado chamuscado e em brasa deu entrada no hospital sentado numa bacia de gelo saindo fumaça.

No dia dois de abril, Demétrio dirigia o seu carro quando avistou em pé na esquina o proprietário do dedo assassino. Brecou e meteu o pé na embreagem, engatou uma primeira e como um touro enfurecido partiu pra cima porrando o destruidor de orifícios, que teve fraturas no fêmur, bacia e costelas e foi internado, respirando com a ajuda de aparelhos. No IML o dedo causador da tragédia foi fotografado e vai fazer parte do inquérito policial instaurado. Pela grossura das falanges do indicador introduzido dá pra se imaginar o tamanho do estrago e a razão da vingança.

Cassete com molho apimentado

Quando Maria Pandeiro perguntou a Juca Jumento se ele tinha enchido os cornos de cachaça com o dinheiro da venda das latinhas, que ela catou na rua pra comprar comida, ele mandou ela botar o rabo pra cima e catar mais, “porque se o seu negócio é sexo gostoso, o meu é sacanagem e cachaça. Se não quiser me bancar, arranja outro bem dotado pra te entupir a cabeluda”, e completou mandando a mulher ir tarrafear macho brejo.

Dois dias depois, fingindo ter esquecido as ofensas, Maria fez chamego de gatinha e disse até estar disposta a deixar o marido sapecar o sarrafo no pandeiro, antigo desejo dele que ela sempre negou, mas que resolveu concordar se ele usasse a camisinha especialmente preparada e lubrificada para aquele momento de amor trazeiro, redondo, pregueado e virginal. Cinco minutos após ter empanado a bisnaga, ouviram-se gritos e correrias. No tumulto, Jumento pelado e desesperado abanava o bilau com uma ventarola de carnaval e berrava por água gelada para aliviar a dor. Para completar a vingança, Maria Pandeiro jogou água sanitária e detergente gel no órgão sexual em desespero. Aos berros, Juca deu entrada no hospital com o cassetão vermelho em fogo e coberto de bolhas. Quando o médico viu, falou “cruz credo”, enquanto removia as pelancas da coisa parcialmente destruída.

Na delegacia, Maria disse que preparou uma mistura de pimenta malagueta, pó de mico, pólvora, urtiga braba e deixou a camisinha mergulhada no molho de um dia para outro. Juca Jumento, com a bichoca despelada e retorcida, vai ficar broxa pro resto da vida.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.