Esfregada no cacetão e outros casos de polícia

Plantão de Polícia - AG Marinho

Esfregada no cacetão

Carlão resolveu comemorar o seu aniversário na fazenda. O acontecimento, que caiu no primeiro dia de carnaval, foi um embalo de arromba e arregaçou pela noite a dentro com banda de funk e dança do kuduro. Foram contratadas pela internet dezenas de moças e rapazes de programa para fazer gargarejos atrás das moitas e nos fundos do curral das éguas. Na piscina, fizeram um concurso para escolher o homem com a bunda mais cabeluda, o rego do vencedor tinha tanto cabelo que parecia um xaxim de samambaia chorona. Dentre outras atrações, uma jovem loira desfilou pelada, montada num cavalo garanhão visivelmente excitado. A mãe de Carlão, idosa e meio cega, perguntou o que era aquela coisa dura que estava pendurada embaixo do cavalo. Nos idos da festa, contaram pro Carlão que a mãe dele estava sendo motivo de buchichos, comentários e risadarias porque não tirava o olho e parecia hipnotizada pelo enorme bilau do cavalo. O aniversariante não gostou e no microfone anunciou que, por desrespeito, ia acabar com a farra “porque quem gosta de cacete de cavalo são as pqp todos os convidados”. Em seguida mandou todo mundo ir tomar…

Já lá ia mais de meia hora de xingamentos dirigidos aos presentes, quando alguém gritou que a velha era mesmo safada e que parecia uma égua no cio, com fogo na lasca da lamparina. O outro mandou a velha chupar os badalos e o canudão do animal. Uma senhorita de programa, que não gostou de ser chamada de galinha de poleiro, disse que se a velha estava tão apaixonada pelo cavalo deveria ser posta no palco para fazer uma cena de sexo explícito com o garanhão. Mais de dez tiros foram dados por Carlão, um pegou na teta de uma das moças do gargarejo, outro acertou a bunda cabeluda do homem samambaia e outro arrancou a orelha da dançarina do kuduro. O pau comeu na festa e o aniversariante, linchado na porrada, deu entrada no hospital com os cornos em molambos e seis costelas fraturadas. A polícia estava registrando o fato quando a mãe de Carlão interrompeu o depoimento e disse: “durante a confusão quase me mataram esfregando a minha cara nos ovos e no cacetão do cavalo”.

Boiolices de carnaval

O bloco das piranhas estava bombando, os amigos e vizinhos, Clodomir e Geremias, bombados de birita, um fantasiado de Mulher Maravilha e o outro de Chica da Silva, se esfregavam um no outro, se lambiam as barbas, faziam troca-troca de chamadas nas bundas e até enfiação de língua nos buracos do nariz. Tava valendo tudo entre a dupla quando, denunciados por telefone, foram surpreendidos pelas esposas, que durante algum tempo observaram as íntimas esfregações e deram início a um bate-boca sobre qual dos dois estava mais veado na história. A mulher de Clodomir disse que já sabia que o vizinho é chegado numa trolha papuda, cabeluda, da cabeça roxa. A esposa de Geremias afirmou que o marido da outra é mecânico de trator só para disfarçar, porque o que ele gosta mesmo e de viver arreganhado com o eixo cravado na roda e cheio de graxa na arruela.

Os maridos não gostaram das atitudes das esposas e aos gritos e empurrões expulsaram as duas do bloco. Em defesa das mães, os filhos, todos de maior idade, entraram na confusão, um disse que o pai deveria tomar vergonha na cara, porque estava mais pra veado do Pantanal do que pra Mulher Maravilha, o outro disse que se o pai estava a fim de se entregar a veadagem, melhor seria deixar a profissão de mecânico e trabalhar na estrada como traveco de programa. Foi uma porradaria, que até quem não tinha nada com isso se meteu na confusão e foi parar na delegacia. Após os depoimentos todos foram liberados. Os dois voltaram para o bloco e até na terça-feira após o carnaval ainda não tinham aparecido em casa.

Ladrão do ovo inchado

Everaldo caiu na balada e mesmo meio de porre reconheceu no estacionamento a sua moto Honda, que havia sido furtada meses atrás. Reuniu um grupo de amigos pinguços, esperou o condutor do veículo, que já chegou bem cheirado, foi montando, dando partida na motoca e inaugurando a cara com uma certeira porrada no centrolho da fuça. Do resto da galera não faltou chute, xingamento, soco e pontapé. Os dois cunhados do surrado entraram na briga em defesa do acusado, mas um tomou um porrovo tão violento entre as pernas que continua até hoje com o saco mega inchado sem caber dentro das calças. O outro, ao tentar fugir acelerando fundo uma moto Yamaha, levou uma tijolada no peito, tombou e despencou meio atordoado na vala da sarjeta golfando sangue. Um popular, que achou ser uma covardia um monte brigando contra três, meteu o bedelho no fato sem ser chamado, tomou um chute no pregueado e saiu capengando com a aba esquerda da bunda destroncada.
A sirene da polícia tocou, mas a porradaria continuou e na delegacia ficou provado que a moto era furtada e de propriedade de Everaldo. A que tombou na fuga também era fruto de furto praticado pela quadrilha, comandada pelo acusado, os dois cunhados e o pai de um deles. Na casa dos ladrões foram encontradas seis motos e dois carros roubados, os quatro já tinham diversas passagens pela polícia.

A perereca da Mulher Aranha

Fantasiada de Mulher Aranha, Juscelina entrou de madrugada na casa de Manolo. Quando Vandinha chegou de manhã, cansada e estrunchada do trabalho, encontrou a cama toda amassada e a aranha desgrenhada, ainda bem porrada de birita, balançando um enorme pedaço de peru. A fantasiada disse que saiu do baile de carnaval e como estava a fim de um rango, foi fazer uma boquinha na casa da amiga. Com a língua meio enrolada, falou que “Manolo tava gostoso, mas bão mesmo tava o peru dele que, assado e caprichado nos alho e na alfavaca, chegava a descer escorrendo e se melando todo pelos cantos da boca”. Em sua defesa o marido disse que tinha assado a ave para almoçar com a sua querida esposa, que passava a noite toda batendo bumbo na banda do clube carnavalesco para faturar uma grana pra ajudar em casa e, portanto, precisava de um trato especial.

Não convencida, Vandinha ficou irada e deu tamanha porrada com o grosso pau de bater bumbo na cabeça de Juscelina, que a mulher caiu desmilinguida e toda arreganhada na beirola do sofá. Berrando palavrões, pegou o pedaço de cocha e sobre cocha de peru da mão da vítima desmaiada e enfiou na perereca da Mulher Aranha. No hospital, a vítima teve que ser operada para retirar o pedaço de peru cravado e entalado no fundo da cabeluda. A delegacia registrou o fato e quando Vandinha ficou sabendo que será processada por agressão, disse que não deve ser considerada culpada “porque nunca viu uma aranha cabeluda ou uma perereca careca que não gostasse de um bom pedaço de peru.

Bisnaga na buzanfa

Bem cedinho, no segundo dia de carnaval, a padaria já estava atochada de gente, tinha até senha de espera para a próxima fornada. Renilda, fogosa e espetaculosa, chegou furando a fila e gritando que queria duas bisnagas moreninhas e bem grandes. O pessoal não gostou do abuso e alguém aconselhou a pegar a senha e esperar a vez ou então ir pegar bisnaga grande no mato, “que é lugar de gente que levanta com fogo no rabo”. A barraqueira não gostou e baixou o nível, desancou todo mundo no palavrão e desafiou a freguesia pra porrada, durante o bate-boca passou a mão num celular e convocou o maridão para batalha e enquanto aguardava a chegada, escolheu as pessoas da fila que seriam as vítimas do desfecho fatal.

O carrão importado chegou cantando pneu, Eurico, maridão, saltou posudo, metro e sessenta de altura, bigodão espalhado, pernas de bodoque e cara de vilão de faroeste, mas quando viu que a chapa estava em brasa tentou apagar o fogo e contornar a desavença. Inconformada, porque queria guerra, chamou o marido de corno, frouxo e arrombado. Mostrou a bunda para o padeiro e mandou que ele enfiasse a bisnaga na da mãe, nesse momento, ninguém sabe quem sentou uma porrada com o ferro de arriar porta nas costas de Renilda. Eurico tomou uma pernada, saiu catando cavaco, deu com a cara no estribo do carro e quebrou os dois dentes da frente. A ambulância chegou e rebocou a barraqueira para o hospital, a radiografia mostrou clavícula e omoplata com várias fraturas e teve que ser operada. A polícia revistou o carrão e encontrou dois revólveres no porta-luvas, o maridão foi preso por porte ilegal de armas.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.