Quando o exercício do jornalismo é sinônimo de atividade de risco Dulce Tupy

Editorial - Dulce Tupy

O jornalismo sempre foi uma atividade de risco. A profissão, uma das mais antigas do mundo, implica em obter e divulgar informações de caráter público, que muitas vezes contrariam as partes envolvidas. Cada um tem sua versão; cada parte tem sua verdade. A pluralidade das versões é que faz o fato jornalístico ser melhor compreendido pelos leitores, espectadores, ouvintes. Em algum momento da história, acreditou-se que o jornalismo era imparcial, que o jornalismo deveria expressar a verdade pura e crua. Mas qual verdade? Tanto nos jornais, como nas rádios e nos canais de televisão, a notícia tem uma marca, a impressão digital de quem escreve, edita, publica. Portanto, não existe uma só verdade, mas muitas verdades; versões de um mesmo fato.

Assim, uma notícia sobre o papa pode ser contra ou a favor, dependendo do enfoque, do veículo. Se for publicada num jornal católico, por exemplo, terá um caráter de exaltação; tudo será favorável! Se for veiculada num jornal evangélico, terá outro foco, outra versão, pois os evangélicos não comungam do mesmo papa. Num jornal espírita provavelmente a notícia nem será publicada, pois espíritas não cultivam a figura do papa, nem budistas e muçulmanos. Cada veículo da mídia tem um enfoque próprio, uma verdade.

O jornalismo se constrói ao longo dos séculos, buscando ser cada vez mais preciso em suas abordagens, apesar de diversificado, segundo o foco de quem veicula as informações. Porém, a prática do bom jornalismo se baseia na apuração dos fatos. A reportagem é centrada na busca das informações, acrescida das impressões individuais de cada repórter, no processo de investigação. Mas há sempre a possibilidade de cair em armadilhas, falsas denúncias, meias verdades ou ir fundo demais chegando a uma verdade inconveniente, que bate de frente com os poderosos… Na apuração de fatos polêmicos, às vezes o jornalista atinge o poder constituído, que se sente ameaçado. Quando isto acontece, a profissão de jornalista se torna uma atividade de risco.

Desde o início do ano de 2012, dois jornalistas foram assassinados no Brasil. No Rio de Janeiro, em Barra do Piraí, Mário Randolfo Marques Lopes, foi sequestrado e executado junto com a mulher, Maria Aparecida Guimarães. Quatro dias depois, foi assassinado, em Ponta Porã, no Mato Grosso, Paulo Roberto Cardoso Rodrigues. Lopes era editor do site Vassouras na Net e estava investigando casos que envolviam membros do Judiciário e do governo local. Em julho de 2011, ele já havia sofrido um atentado. Paulo investigava a rota do tráfego de drogas, na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Em nota, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) pediu ao Ministério Público imediata investigação e punição dos assassinos. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a organização internacional “Jornalistas Sem Fronteiras”, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA) também se manifestaram. Na conclusão da nota, a FENAJ defende, além da punição dos criminosos, o Projeto de Lei 1.078/11, que federaliza os crimes contra jornalistas, tirando-os da esfera municipal e estadual, onde ocorrem. “Avançar para uma rápida tramitação e aprovação de tal proposta (…) se impõe como uma necessidade premente de um país que realmente reconheça na liberdade de imprensa um pilar fundamental para o efetivo exercício da cidadania e da democracia”, diz a FENAJ.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.