Lascada com cerol no rabo e outros casos de polícia

Plantão de Polícia - AG Marinho

Lascada com cerol no rabo

Como todo mundo queria a máquina de lavar roupa de segunda mão, Ilda do Forró da Furinguda promoveu um bingo que incluía outros prêmios como: bandejão de sardinha frita, empadão de bucho moído, uma travessa de pés-de-moleque e uma bobina de linha de pipa com cerol. A coisa estava bombando e logo de saída o clima esquentou quando exigiram a troca do cantador de pedras, acusado de ser fanho, entupido e ter voz galinha garnizé. A segunda confusão começou quando o ganhador do empadão disse que a massa estava azeda cheirando a chulé e que pretendia enfiar a iguaria podre no furingo da dona do cassino. Acalmadas as confusões, e já se iniciava a disputa do prêmio principal, quando Zeca Pintado, tirando chinfra de malandro cheio de bossa, deu entrada no recinto. O cantador cantou o n° 24. Totonho Vesgo, que animava o evento relacionando as pedras com os animais do jogo do bicho gritou: “chegou o viado”.

Duas cadeiras passaram voando. Uma se espatifou no olho vesgo do animador e a outra na cara do cantador dos números. A porradaria se dividiu em duas turmas: Totonho X Pintado. Alguém jogou o bandejão de sardinha pro alto e o fedor de peixe rançoso se espalhou no ambiente. O empadão, que também estava azedo, virou mingau quando se espatifou na cara de Ilda Furinguda. Embaraçada na confusão, a linha de cerol navalha saiu cortando todo mundo. Elenice, uma das incentivadoras da briga, que depois de umas boas porradas teve a cara esfregada no chão, levou uma linhada por baixo da saia, bem na beirola do rego e se esvaiu em sangue com a aba da bunda lascada pelo cerol. Ninguém foi preso porque a polícia não foi chamada. Elenice, que chegou ao hospital encharcada de sangue e fedendo a peixe, tomou sessenta pontos no rabo e teve que ficar internada de bunda pra cima.

Visual do cacetão

Todo mundo do bairro odeia Manuela Fuxiqueira, que vive inventando fofoca e se metendo na vida dos outros. O marido, que de tanto receber reclamações prometeu dar uma coça nela na passagem do Ano Novo, fez um quartinho nos fundos do quintal e foi morar com os dois cachorros, que também não gostam da “patroa”. Boateira juramentada, disse que a mulher do vizinho, depois de ter transformado um dos quartos da casa onde mora numa birosca pra vendar cerveja e cachaça, fez um buraco na parede, para de dentro de sua sala ver os homens mijando no banheiro do bar. Inventou até que a vizinha já está com catarata de tanto tomar respingo de mijo no olho que, dia e noite, vive enfiado no buraco da urina, “que em breve pretende aumentar e alugar para quem quiser desfrutar do visual do cacetão”.

O assunto do buraco caiu na boca do povo quando todo mundo ficou sabendo que o bilau de Juca da Sururuca tem dois calombos no meio e, em seguida, uma acentuada curva para esquerda, parecendo um camelo com torcicolo. O acusado, que trabalha num matadouro, não gostou quando soube que o seu segredo foi revelado e na noite de Natal mandou de presente para Manuela um enorme birro de boi, inchado, podre e fedido, dentro de uma caixa embrulhada com belo papel de presente e laços de fita de cetim de seda. No cartão a inscrição: “Sem curva nem calombo. SIRVA-SE”. O segundo presente de Ano Novo foi, conforme prometida, a coça de porradas dadas pelo marido que, ao ser preso, fez questão de levar para delegacia a caixa contendo a parte despudorada dos restos mortais do boi capado.

A maldição de Chica Checheca

Deu meia-noite. A família toda reunida se preparava para surpreender os participantes da festa com os seus presentes, quando Chica Checheca, em lugar de Papai Noel deu entrada na sala fantasiada de bruxa do outro mundo. Como ninguém gostou da brincadeira e a criançada apavorada desandou no maior berreiro, Tião, que estava bêbado desde a véspera do Natal do ano passado (2010), incitou a turma a declarar o desterro da convidada e a expulsão da festa. Chamou a fantasiada de velha safada fdp e prometeu atirar um caldeirão de água fervendo na cara de Chica “para cozinhar a bruxa viva”. Em prantos, por ter sido humilhada pela brincadeira, lançou sobre Tião a praga do zumbi leproso que morreu de hemorragia nas hemorróidas.

Na tarde do dia 25, um carro que vinha em alta velocidade deu uma porrada tão grande em Tião, que além de voar uns dez metros se esborrachou contra um poste e foi removido às pressas se esvaindo em sangue por todos os buracos naturais. Reunido, o tribunal da família culpou, julgou e condenou Chica Checheca, sentenciando que o acidente foi consequência da praga maldita. A pena foi uma coça de vara de marmelo que deixou a ré lanhada dos pés a cabeça. A queixa de agressão se estendeu a toda família, desde os jurados até os executores da pena, inclusive um tal de Jiló, que foi encarregado de entrar no mato cortar e preparar a vara para comer Checheca na porrada.

Catando macho na janela

O dia inteiro e à noite também, Helena, 38 anos, ficava debruçada na janela esperando para ver passar o empreiteiro de obras. Depois de dois anos revirando o olho e jogando beicinhos, o “príncipe”, cansado daquele olhar de cabaçuda de janela, pulou o muro da varanda e sentou o fumo na encalhada. Meses depois, se dizendo grávida, chamou o pai e foi tirar satisfações na porta da casa de Marcondes, afirmando que a filha era virgem quando foi arrombada na varanda e engravidada por conta do estupro.

No meio da brigalhada, testemunhas afirmaram que a “virgem” foi esgulepada na macega e deflorada no dia da primeira comunhão. Marcondes, com o comprovante de que fez vasectomia irreversível em 2001, pegou o papel e esfregou na cara do pai da golpista. Desconfiada, a mulher do empreiteiro partiu pra porrada e arrancou o recheio de pano escondido embaixo da saia da falsa prenha. Se dizendo enganado e envergonhado, o avô do enchimento expulsou a filha de casa e mandou que ela fosse catar macho em outra janela. Antes de sair de casa, Helena deu uma garrafada na cabeça do pai que deu entrada no hospital todo arrombado com traumatismo craniano.

O romântico estuprador

Dona Coisa saiu do culto e andava pensativa pelo escuro e deserto caminho do Lá Vai Um. Já estava bem próximo ao sítio onde mora, quando uma figura mascarada saltou do mato e, devidamente pronta e em posição, anunciou a intenção de estupro. O aventureiro confessou amor encubado e os seus desejos carnais pela vítima, que sempre o excitou, especialmente quando se arreganhava no pilão pra socar milho pros pintos e mandioca pras galinhas. Disse que o seu amor era antigo, desde o tempo quando ainda jovem ela subia na mangueira e ele ficava embaixo da árvore olhando pra cima. Que jamais esqueceu a visão da cena dela com a bunda virada pro alto tirando água do poço, quando uma forte rajada de vento levantou a saia e apareceu aquela calcinha rasgada da qual até hoje imagina qual seria o suave sabor e o doce perfume. Falou do dia em que ela montou numa égua velha, sem sela, cavalgou desgovernada pelo pasto e ficou cheia de bolhas toda assada por baixo. Que lembra muito bem de ter caminhado horas até encontrar uma rezadeira para curar a espinhela caída e tirar um monte de bichos de pé que, cheios de pus, quase a matou com febre, íngua na virilha e comichão nas reentrâncias. Falou das tantas vezes que ouviu a mãe brigar com ela por viver com o dedão enterrado no nariz tirando meleca. E antes de ficar completamente pelado disse que jamais se esqueceu do ensopado de galo com mamão verde que ela fez e serviu com café ralo na noite do velório do pai que morreu de erisipela de carrapatos.

Na delegacia, durante o depoimento Dona Coisa afirmou: “Por mais de três vezes consumou o ato baforando no meu cangote. Sem tirar a máscara me lambeu com beijos, me babando toda. Fuçou meu sovaco com língua de langanho, fez cafuné na bunda com a mesma barba espinhenta, com a qual esfregou e ralou os bicos das minhas maminhas. Sem piedade fui possuída por tudo quanto foi lado. Fiquei toda ardida e sapecada com o esfregaço da perereca na moita de tiririca. No vai e vem do vuco-vuco, me deu uma futucada nas ancas que me deixou com cãibra nas adjacências da perseguida. De tanto nervoso e medo estou entupida por um lado, mas quando lembro do mascarado, me mijo toda pelo outro”. A polícia ainda não encontrou o romântico estuprador.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.