Paulo Melo, de menino de rua a governador

Paulo Melo despachando como governador no Palácio Laranjeiras, no Rio, com a bancada de deputados do PMDB, seus pares na Assembleia Legislativa (ALERJ), onde ele é presidente. (Foto: Divulgação)

Paulo Melo despachando como governador no Palácio Laranjeiras, no Rio, com a bancada de deputados do PMDB, seus pares na Assembleia Legislativa (ALERJ), onde ele é presidente. (Foto: Divulgação)

Ele já foi vendedor de cocada, na infância, menino de rua, na adolescência e auxiliar numa agência de carros, na juventude. Na carreira política foi vereador de Saquarema e deputado estadual com 6 mandatos, tendo sido líder de vários governos. Atual presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Melo acaba de exercer o cargo de governador do Estado do Rio de Janeiro, durante 5 dias, por ocasião da viagem do governador Sérgio Cabral a Portugal, para conhecer de perto a tecnologia dos bondes de lá , para trazer para o serviço de bondes de Santa Tereza, e da ausência do vice-governador Luiz Fernando Pezão, substituto direto. Terceiro na linha de sucessão, no exercício do governo estadual Paulo Melo foi discreto, mas atuante. Assinou lei e decretos, nomeou um secretário e inaugurou obras no interior, em Saquarema, sua terra natal, em Araruama e Aperibé, entre outras localidades.

Em Saquarema, teve o duplo prazer de se encontrar com amigos e correligionários no lançamento da pedra fundamental de um complexo escolar em Jaconé e do reservatório de água para o bairro que mais cresce na cidade, em parceria com a Cedae. Durante seu curto período como governador, recebeu no Palácio Laranjeiras vereadores e as lideranças da ALERJ, entre outras autoridades, em almoços de trabalho. E degustou ao lado de sua esposa, a prefeita de Saquarema, Franciane Motta, o belo filme O Palhaço, de Selton Melo. Apenas um fato triste durante o período: o falecimento de sua irmã Graça que deixou um filho de 9 anos.

Sentado em sua escrivaninha, no novo escritório que acaba de construir na Avenida Saquarema, no Porto da Roça, Paulo Melo é o saquaremense de camiseta e bermuda, como sempre. Junto com auxiliares diretos e amigos, começa a reunir neste novo espaço, com várias salas, toda a memória de sua vida, retratos da família, da carreira política que construiu a duras penas, pastas com projetos de leis, discursos, vídeos e uma infinidade de lembranças que marcaram sua trajetória. Sede de suas empresas e de seu novo escritório político, ali foram feitas as articulações políticas que desembocaram numa grande aliança de partidos em torno da futura campanha à reeleição da prefeita Franciane, ano que vem. Rindo e descontraído, é um Paulo Melo satisfeito com a vida, mas sem perder as rédeas do destino, jamais.

Paulo Melo

Paulo MeloComo govenador, Paulo Melo lançou a pedra fundamental da obra de abastecimento de água no bairro de Jaconé

O Saquá – E esse novo escritório no Porto da Roça?

Paulo Melo – O escritório é fruto do trabalho. Tenho algumas empresas que funcionam no Rio de Janeiro. Mas agora que minha vida está mais tranquila, eu e a Franciane com uma vida mais estabilizada, pensei em trazer minhas empresas para Saquarema. Aqui posso inclusive colocar meu parentes para trabalhar comigo, sem nenhum tipo de nepotismo, porque a atividade empresarial é uma atividade particular. Então este é um escritório que a minha empresa comprou. Aqui instalei vários escritórios: o da minha empresa de consultoria imobiliária, a Vento Sul, o escritório da minha empresa de agropecuária, a Mauá Agropecuária, e o meu escritório político. É também para evitar a cultura de fazer da nossa casa um escritório político on time. Então aqui eu posso atender com mais tranquilidade. Assim estou trazendo minhas empresas para um lugar bonito, centralizando tudo em Saquarema.

O Saquá – Como foi a articulação política que se configura atualmente com a participação do Zequinha e do Dalton?

Paulo Melo – A experiência na política de Saquarema foi muito importante, e tivemos que mostrar às pessoas o que Saquarema era, o que Saquarema é, e o que Saquarema poderá ser, dependendo de cada um de nós. Saquarema não pode voltar ao atraso! Cada pessoa por mais adversária ou adversário que seja do Paulo Melo, não pode em nenhum momento ignorar as melhorias que aconteceram, acontecem e acontecerão na cidade, fruto da ação política de um grupo e das oportunidades que me foram dadas, como parlamentar, para poder influir junto ao governo do Estado na obtenção de verbas que estão transformando a cidade de Saquarema. Numa das reuniões que eu tive com o Zequinha, eu dizia pra ele: Zequinha, seu patrimônio triplicou sem você ter investido um tostão sequer, só com a valorização de Saquarema! Como aumentou também o patrimônio do meu adversário, dos meus adversários! É natural, porque a cidade cresceu muito! E foi assim que eu provei para Dalton também. Tudo foi na maior lisura e na maior transparência. Não teve acordo que ultrapassasse a barreira do aceitável e da decência; tudo foi dentro da forma republicana. E eu perguntei a Dalton: o que adianta você ser prefeito de Saquarema se você não me tiver do seu lado trabalhando para ajudar a governar a cidade? E ele me disse assim: nada! Ele mesmo diz que se for prefeito sem a minha ajuda não adianta nada para ele…

O Saquá – Como foi ser governador?

Paulo Melo – Tudo isso culminou naquilo que pra mim foi a maior emoção da minha vida política: ser governador do meu Estado, mesmo que por um período muito curto, de 5 dias. Eu despachei direto do Palácio Laranjeiras, a pedido do governador Sérgio Cabral, e pude fazer algumas coisas: assinei lei, despachei com secretários, nomeei até o secretário Sergio Zveiter, que tinha sido exonerado para cumprir uma missão em Brasília e retornou ao cargo de secretário de Trabalho e Renda, nomeei e exonerei alguns cargos a pedido do secretário de Planejamento, assinei decretos… É um orgulho muito grande porque isso já está na minha biografia. Eu escrevi uma mensagem para o Sérgio Cabral agradecendo a ele a oportunidade, dizendo que não tinha como pagar o orgulho de carregar para o resto da minha vida o privilégio de ter governado meu Estado. Ele então respondeu: isso é fruto da sua lealdade, do seu trabalho e da sua determinação. E, como governador, eu pude inaugurar obras no Estado e dar início a uma obra extremamente importante que é a Água de Jaconé, assim como também pude analisar e cobrar mais rapidez nas obras de Saquarema, Araruama e outros municípios. Como governador, também inauguramos uma nova fase de obras em Araruama e uma obra conseguida por mim, como deputado, que foi a Estação Rodoviária de Aperibé. Atendi a bancada de vereadores de Saquarema junto com o Cabral, secretário de governo e Zequinha. Tive o privilégio de almoçar com a minha prefeita Franciane, minha esposa, no Palácio Laranjeiras. Ofereci um almoço para as lideranças partidárias e a mesa diretora da Assembleia. E me reuni com a bancada do PMDB. Este foi o último despacho que eu tive no dia 1. E, no dia 2, eu fiquei em stand by como governador e meu último ato, como governador, foi assistir a uma sessão de cinema com Franciane: O Palhaço, do Selton Melo, que é uma história fantástica! Foi muito importante estar governador porque, mesmo com críticas, saímos em todos os jornais, além do mais participar do twitter do colunista do jornal O Globo Jorge Bastos Moreno, no dia 31 de outubro, ele que também foi menino de rua, o que me dá um profundo orgulho! Um cara que fala sobre os presidentes da República, sobre os governadores mais influentes, tratar deste ex-menino de rua que se tornou governador, para mim foi fantástico.

O Saquá – Nesse período aconteceu um fato bastante difícil de ser enfrentado que foi o falecimento de sua irmã mais nova, a Graça. Você poderia falar dos seus irmãos?

Paulo Melo – A gente tem que agradecer a Deus o que Ele dá e não reclamar do que Ele tira, porque se todos nós formos analisar o que ganhamos de Deus é muito maior do que aquilo que Deus nos cobra no dia a dia. A vida é uma grande estação, onde alguns partem e outros chegam; essa é a história da vida. O Steve Jobs disse que o velho morre para dar lugar ao novo. É claro que me dói perder qualquer pessoa, mas eu, pela minha religião, pois sou católico-kardecista, não admito que a gente queira que uma pessoa sofra para que a gente não sofra no lugar dela. A minha irmã estava com câncer. Eu prefiro mais quem ajuda em vida do que quem chora na morte. Eu tenho ajudado toda a minha família em vida. Fiz tudo que era necessário quando ela fez a intervenção; levei os exames para serem analisados; pedi ao Dr. Sérgio Cortes, entre outros médicos, e eles deram 3 meses de vida para ela, mas ela viveu mais de 1 ano, diga-se de passagem. Ela só caiu mesmo em sofrimento 10 dias que antecederam sua morte. São os desígnios de Deus; a gente não pode reclamar disso. Claro que dói! Ela deixou um filho de 9 anos; nossa preocupação agora é ajudar essa criança que não tem nenhuma culpa, que não pode ser penalizada pela perda da mãe. Meus irmãos são pessoas maravilhosas. Eu tenho irmãos que jamais usaram, assim como meus filhos, o fato de eu ser deputado, ser uma pessoa importante, para obter privilégios. Dedeo é o irmão com quem eu tenho uma grande ligação porque morou comigo, trabalhou comigo. Mas ele tem orgulho de fazer o que ele faz, gratuitamente, porque quem paga para ele sou eu. Ele não recebe nada da prefeitura. Participa gratuitamente do serviço de limpeza, em Itaúna, porque o prazer é dele. Fátima é a irmã a que todos nós devemos pagar tributo, porque é quem cuida de todos. Cuidou dos meus filhos, cuidou agora da Graça o tempo inteiro, cuidou da minha mãe, cuida de todo mundo. É a nossa Madre Tereza de Calcutá, a nossa Irmã Dulce. Fátima é tudo de bom! Leth é uma pessoa que tem uma ligação muito grande comigo, que quando foi paro o Rio de Janeiro, trabalhar, há muito tempo, eu tirava do meu dinheiro para pagar uma hospedagem para ela, uma vaga, e eu dormia na rua, porque não tinha dinheiro para pagar para os dois… Então é uma pessoa que tem uma ligação muito grande comigo. Gelson, que é meu irmão por parte de pai, é meu grande amigo, meu parceiro. Jaime, que atualmente preside a Fundação Santa Cabrini, no Rio de Janeiro, estudou direito, mas não se formou. Nilma trabalha no Rio, casada, tem sua vida. Carmen, uma pessoa simples, humilde, mas mora numa casa que eu dei para ela. Então eu ajudo a minha família como posso. Hoje são: Dedeo, Jaime, Gelson, Nilma, Leth, Carmen, Fátima e dos Anjos, que é irmã por parte de pai, e seus sobrinhos são muito afetuosos comigo. Vivi muito tempo na casa da dos Anjos; a gente se dá muito bem. A vida é isso, cada um se acomodou de um jeito. Eu fui à luta, sofri muito, paguei um preço muito grande, dormi nas ruas, fui espancado.

O Saquá – Desde pequeno teve de ir à luta!

Paulo Melo – Trabalhei muito; comecei com 5 para 6 anos de idade. A vida é isso. A gente tem que agradecer a Deus. Eu agradeço todos os dias. Quando eu estava fechando o caixão da Graça, olhei para ela e perguntei: porque Deus me deu tanto? Não sei. Tem que perguntar a Deus. Eu acredito que deva merecer o que eu estou recebendo; aquilo que perco também. São as penas que eu ainda não cumpri e que eu tenho que cumprir no decorrer da minha vida.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.