O pau do casamenteiro e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

O pau do casamenteiro

A discórdia começou no mato onde se embrenharam para cortar o pau de Santo Antônio. Uns achavam que deveria ser fino e comprido, outros protestaram porque queriam comprido e grosso. A turma do pau fino alegou ser mais fácil para levantar e cravar no buraco, enquanto a turma contrária, além de afirmar que os devotos sempre preferiram um bem grosso, diziam ser melhor pra se divertir quando bem lambuzado de sebo. No final da tarde chegaram a um acordo e saíram do mato segurando o pau do santo, que não era nem grosso e nem tão fino, mas, no item tamanho, era um pauzão de fazer inveja e dar água na boca. Colorido e com a cabeça enfeitada, o pau do casamenteiro saiu em procissão e foi cravado no buraco enquanto era reverenciado pelos devotos, sendo fartamente aplaudido e provocando grande euforia nos participantes da festa.

O guardião da estaca, segurando uma trombeta e com uniforme de corneteiro, proibiu uma senhora de pagar a promessa de pendurar muitos balões coloridos dando beijos no pau enterrado e, após um longo bate-boca, permitiu que apenas duas bolas fossem colocadas no pé da estaca. Achando que desta forma a promessa não seria cumprida, o marido da prometedora encheu o trombeteiro de porradas e, por diversas vezes, socou a boca do guardião no pau de Santo Antônio que, todo ensangüentado, balançou, mas não caiu, enquanto voava dentes em cima do povo que se arregaçava na dança da quadrilha. Um grupo de moças, proibidas de arrancar a casca do pau pra fazer chá de pega-macho, também entrou na briga e sapecaram o cacete no corneteiro. A polícia chegou e o guardião, com a boca esgramelada, foi levado para o hospital, enquanto as brigonas continuavam caçando marido na festa do santo.

Lascada no enterro

O enterro de Balaco, morador de rua que vivia cercado de vira-latas, foi acompanhado por 5 pessoas e 17 cachorros soltando uivos e latidos. Lenícia, mãe do defunto, que carregava um bouquet de tiririca do brejo, ficou irritada com a barulheira, desmanchou o enfeite e desancou o cacete na cachorrada que ficou toda furada com os espinhos. Nelau e seu filho, ambos sem teto, amigos do de cujos e dos animais e que ajudavam a carregar o ataúde de fabricação caseira, não gostaram da reação da velha e soltaram as alças do caixão, que bateu no chão e se espatifou no meio da rua. Quando viu o ex-dono e atual defunto caído na estrada, a cachorrada aos pulos de alegria e arrombada de satisfação partiu pra cima e babou o cadáver na lambida, arreganhando os dentes e ameaçando quem tentava se aproximar. Quando Eulázio chegou com martelo e prego pra consertar os estragos, uma cachorra chamada xereca, sapecou uma dentada na bunda do carpinteiro, mas em troca levou uma martelada na cabeça e caiu desacordada. Em defesa do animal Nelau passou a mão num pedaço do caixão e entabuou a cara do carpinteiro. Xingado por Lenícia, usando a mesma lasca de madeira, lascou na porrada a genitora do defunto. A vizinhança apartou a briga. O defunto voltou pra casa e no dia seguinte o corpo de Balaco foi levado para o cemitério num caminhão de mudanças para ser sepultado.

Surpresa do corno

O pai é torcedor fanático, empresário, ex-jogador de futebol da seleção municipal, ponta esquerda do veterano, grosso, mal educado, mas perdidamente apaixonado pela jovem amante com a qual mantém uma relação secreta e que cobria de presentes caros. O filho Alex, universitário e excelente aluno, dotado de rara inteligência, é um virtuoso e precoce pianista clássico que abomina qualquer tipo de competição esportiva, exercícios físicos, brigas, palavrões, drogas, jamais soltou pipa, nunca sentou com as pernas arreganhadas e acha ridículo enfiar a mão dentro das calças pra ajeitar e dar aquela coçada básica no bigurrilho. As ofensas do pai para o filho eram diárias e na última chamou Alex de boiola, de traveco pervertido e de biba de operário de obra. Como sempre, nenhuma resposta. Enfurecido se disse incapaz de continuar morando sob mesmo teto com o filho, que classificou como um desnaturado homossexual, e a esposa indesejada pela qual já não nutria qualquer sentimento. Ao tentar se instalar na bela e confortável casa que deu à amante foi por ela impedido. Recusado, foi informado da paixão da amante por outro homem, com o qual há dois anos mantém relação amorosa, de quem está grávida de gêmeos e com quem em breve vai se casar. Alex confirmou a relação amorosa e íntima que tem com a amante do pai. Os papéis para o casamento estão em andamento no cartório.

Despombada na calçada

A cerca alta não era obstáculo pra galinha de Bartira, que cismou de fazer o ninho em baixo da pia da cozinha da vizinha. O pedido de devolução dos ovos e a negativa de Deolinda foi o ponto de partida para a briga que piorou quando uma disse que a postura virou fritada, porque se nascessem, os pintos teriam a cara do marido de Bartira,“que gosta de comer galinha crua no matinho atrás da casa”. Como resposta, ouviu a acusação de que a penosa fugia para casa dela porque as duas são da mesma raça e família e completou: “é por isso que muitos rapazes do bairro vivem levando os ovos pra esquentar na sua chocadeira”. A acusação de que a esposa é galinha foi um desagrado para o marido de Deolinda, que foi tirar satisfação, encarou o esposo da vizinha e os dois se engataram na porrada. Do outro lado da rua, as duas adversárias também se tamparam no cacete e Bartira, armada com um facão, deu uma facãozada na chocadeira de Deolinda que, despombada, desmaiou ensanguentada na calçada. A polícia chegou junto com o resgate. A que foi lascada a facão foi para o hospital. Os três restantes, inclusive a galinha que deu origem ao conflito, foram levados para delegacia.

Dança virtual

Num obscuro e camuflado site, onde os preços dos produtos contrabandeados do Paraguai se misturam a ofertas de moçoilas de programa, Ladário, que vive caçando sacanagens virtuais na internet, encontrou um vídeo no qual a sua noiva e secreta amante aparece pelada, com um leque de penas de avestruz fazendo a dança do soca a bunda. No fundo, uma plateia excitada joga dinheiro na dançarina. Na moteleira noite do semanal encontro, relatou a descoberta e indagou sobre o faturamento. Entusiasmado se propôs a virar cafetão da noiva, sem saber da mafiosa estrutura gestora deste tipo de atividade. Avisado, insistiu.

Rejeitado pela cúpula da gang da prostituição ameaçou tirar a namorada do negócio e partir para carreira solo. O clandestino tribunal da máfia reagiu e penalizou Ladário com o castigo da entubação anal. O pretendente a cafetão foi hospitalizado. No laudo oficial estava escrito mais ou menos assim: “deu entrada neste nosocômio um paciente com um pedaço de bambu cravado no orifício natural, conhecido como válvula caganicânica de escape gasoso”.

Arrombador mascarado

Quando o ladrão invadiu a casa encontrou Carlotinha, 47 anos, dormindo em seu quarto, ainda virgem, donzela, pura e fresca entre os lírios de plástico que enfeitavam a mesinha de cabeceira ao lado da cama. Desbravador, sem pestanejar sacou o espadaúdo pirulitão e entrou arrombante na até então caverna imaculada. Um grito de dor acordou a vizinhança, no mesmo instante em que, ensanguentada e dolorida, Carlotinha dava adeus a velha e encruada virgindade, levada pelo assaltante mascarado junto com um cordão de ouro e um celular barato.

Durante o depoimento se achou culpada por ter o hábito de dormir pelada, o que facilitou a ação do meliante estuprador, violador de periquita sem pecado, coberta pelo véu da castidade, diariamente banhada, raspada e desodorizada. Ao lembrar da fechadinha chorou, visivelmente sem saudade e sem lamentar a atual aparência de sua margarida desfolhada e completou: “Sabe de uma coisa, eu não vou registrar queixa nenhuma, nem quero saber quem foi o mascarado que me arreganhou a janela. Agora eu sou é Carlotona, arrombada porém feliz”. Sem mais nada dizer, saiu da delegacia jogando beijinhos.

Buraco de enfiar banana

Debaixo da saia rodada da velha conhecida como Zita Gargarejo, os seguranças do supermercado encontraram duas caixas de sabão em pó, três metades de queijo bola tipo reino, um pedaço de bacalhau graúdo e um de mussarela de vaca. Quanto mais futucavam, mais coisa caia de entre as pernas e dos beiços da periquita da ladra. Tinha até um varal de secar roupas, com pregador e tudo, uma lata de azeite, uma colher de pau, duas calabresas e um montão de rodelas de mortadela defumada. Quando a cana dura chegou, ao ser revistada pela policial feminina foram encontrados dentro de uma bolsinha presa na cintura, conhecida como “tampa de perseguida”, quatro cartões de crédito furtados de diversas pessoas, dólares e outras moedas estrangeiras. Presa, estava na delegacia sendo assistida por um senhor, com a boca gordurosa e cheia de dentes de ouro, os dedos entupidos de anéis e a gola da camisa ensebada, que se disse advogado. Reconhecido por um antigo policial, o falsário e estelionatário foragido da penitenciária, estava com prisão decretada e foi preso. No xilindró se desentenderam e saíram na porrada. Durante o bate-boca ele disse que ela é comerciante de menores, que comanda uma gang que sequestra crianças pra vender na internet. Ela disse que a especialidade dele é operar máquinas de fazer buracos para enfiar bananas de dinamite para explodir caixas eletrônicos.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.