Não falta cultura em Saquarema, falta melhorar a comunicação

Editorial - Dulce Tupy

Fui convidada para ir a uma reunião, debater a cultura local. Não fui, mas soube que o encontro foi com um produtor cultural, com intenção de fazer projetos para angariar recursos do orçamento municipal. Aliás, tem muita gente que acha que em Saquarema não há cultura, que é preciso salvar o município das trevas culturais, como se houvesse muita cultura por aí, neste país que acaba de lançar uma cartilha ensinando como escrever errado! (Ver a coluna ao lado do grande jornalista Silênio Vignoli). Saquarema tem cultura sim, no sentido mais profundo da palavra. E não é aquela cultura rasteira de eventos ligeiros, como acontece na maioria dos municípios da região.

Saquarema tem uma tradição cultural religiosa, como Paraty, que mantém manifestações como a Folia do Divino (Ver também a matéria sobre o assunto na página 14) e a Folia de Reis que pouco restaram por essas bandas, com exceção de Cabo Frio, que produz inclusive um festival de folias de reis no início de cada ano em praça pública. Saquarema tem uma cultura gastronômica, desde o tradicional peixe com banana, embora os restaurantes apenas ofereçam a moqueca capixaba, até a sola que é um doce saboroso e nutritivo, mas que fica escondido nas casas das famílias, sem nenhum destaque.

Saquarema tem a cultura do esporte, principalmente do surfe, com seu colorido praiano, sua moda casual, seus cabelos ao vento e suas sandálias divinas! E, junto com a cultura do mar, vem a cultura do rock, das motos e dos esportes radicais, skate, vôo livre e outros. Qual cidade aqui perto tem tudo isso junto? A cultura do esporte aqui vai do vôlei à natação, passando por várias modalidades de lutas marciais, ciclismo, cross (auto e moto) e muito, muito mais. Saquarema tem ainda a cultura do artesanato, nativo, como se encontra na Mombaça ou o que se vende na Feira do Artesanato, resquício da moda hippie. E tem os artistas plásticos, alguns até sacros, que expõem raramente, mas não deixam de produzir suas peças. E os paisagistas, como Nelsinho, herdeiro da tradição do mestre Antenor de Oliveira.

Mas Saquarema tem vergonha de ser Saquarema e às vezes tem razão. Por que não temos até hoje um Museu Histórico da cidade, contando o ciclo do café, o ciclo da cana? Por que foram destruídas praticamente todas as construções coloniais? Mas mesmo assim Saquarema resiste e fez a mágica de editar 2 livros, um sobre Alberto de Oliveira, o Poeta de Saquarema e outro sobre as Raízes de Minha Terra, que são marcos culturais. Saquarema tem 2 bandas, a Lira de Nossa Senhora de Nazareth e a Santo Antônio, que são referências regionais. E, para nosso orgulho, aqui temos um grupo de dança como o Daumas que se apresentou nos Jogos Panamericanos.

Temos também outras expressões culturais, como o jovem cineasta Tiago Quintes que, com seu filme Sufoco da Vida, ganhou prêmios no 17º Festival de Gramado Cine Vídeo (Pode ser visto no You Tube em duas partes, logo abaixo). E temos a Casa do Nós com seu teatro filial do Grupo Nós do Morro, do premiado diretor Guti Frag a, incensado pelos maiores nomes da dramaturgia brasileira. Falta cultura em Saquarema? Não, falta divulgação. E sensibilidade para degustar.

O Saquá 134 – Maio/2011

Artigo publicado na edição de junho de 2011 do jornal O Saquá (edição 134)

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.