Tartaruguinhas “cabeçudas” nascem em Itaúna

Tartaruguinha Cabeçuda

Tartaruguinha bem menor que o copo descartável no alto da foto

Júnior protegeu os ovinhos na areia

Júnior protegeu os ovinhos na areia

Entre o Natal e o Ano Novo a ilustre visita de uma tartaruga da espécie Caretta caretta, conhecida como tartaruga “cabeçuda” devido a sua cabeça ser grande em proporção ao restante do corpo, foi prodigiosa para o ambiente, em Itaúna. Já era noite quando o gerente da Pousada Maasai, Francisco Júnior, viu uma tartaruga saindo do mar, que se arrastou por alguns metros, cansada, escolheu um lugar que passou a cavar, fazendo uma espécie de ninho, onde depositou minúsculos ovinhos. Depois descansou e, mais tarde, foi embora, de volta ao mar, para cumprir o seu destino.

A partir daí, Júnior teve certeza de que ali nasceriam tartaruguinhas, mesmo sem ser cientista, apenas com a intuição de quem é mergulhador profissional, habituado com os segredos do mar e com a sensibilidade acentuada por aquela noite de lua cheia. De manhã, Júnior e a esposa Maria cercaram a área com estacas e fita amarela, para evitar que os ovinhos fossem destruídos, tanto pelo trator da limpeza de praia, como por quadriciclos e bugres que vez por outra passam por aquele recanto de Itaúna, onde não deveria passar nenhum veículo motorizado…

O nascimento das tartaruguinhas

Duas luas cheias mais tarde, centenas de tartaruguinhas nasceram de madrugada e, em vez de descerem rumo ao mar, subiram a areia na direção das Pousadas com suas luzes muito claras, imitando o dia. Foi aí que os pescadores de Itaúna entraram em cena, com seus baldes providenciais, catando as pequenas tartaruguinhas e colocando-as sobre as ondas, no primeiro banho matinal. Essa espécie de tartaruga, uma das 5 que existem comprovadamente no Brasil, tem poucos centímetros ao nascer, mas chegam a medir 25 cm quando adultas, podendo chegar a 1,5m. Mesmo sendo a tartaruga mais comum desovando no litoral brasileiro, este fato é inédito em nossa região e jamais foi registrado em Saquarema.

A oceanógrafa Andréia Montibeler

A oceanógrafa Andréia Montibeler

“Os machos dessa espécie permanecem no mar, mas é comum as fêmeas voltarem para a mesma região onde nasceram, para desovar. Os ovos são depositados quase sempre de noite, em ninhos escavados pela fêmea, em solo arenoso e ao abrigo da maré alta. O número de ovos postos é de 58 a 174 ovos, podendo a mesma fêmea pôr até 7 posturas sucessivas numa época reprodutora ativa, cada postura separada por um intervalo médio de 13 dias”, explica a oceanógrafa Andréia Montibeler, uma das pessoas que viu uma das tartaruguinhas recém- nascidas na praia.

Natural de Santa Catarina, formada pela Fundação Universidade do Rio Grande (FURG), uma referência em oceanografia no Brasil, Andréia mora há quase 5 anos em Saquarema com o marido, o também oceanógrafo Ricardo Saraiva e o filho Ian, de 4 anos e meio. Como pesquisadora trabalhou em projetos com tubarões, tartarugas, aves marinhas, invertebrados e mamíferos marinhos, baleias jubarte, golfinhos rotadores e no Projeto Tamar.

Espécie ameaçada de extinção

Segundo Andréia, a “cabeçuda” torna-se adulta por volta dos 25 a 35 anos e pode atingir até 250 kg e 1,5 metros de comprimento. Sua coloração varia de amarelo a marron na pele e vermelho-amarronzado no casco. Carnívora, a “cabeçuda” se alimenta de camarões, ouriços-do-mar, esponjas, peixes, lulas, polvos e águas-vivas. Hoje, se encontra na lista das espécies ameaçadas de extinção. Daí a importância do nascimento das tartaruguinhas em Saquarema, revelando um fato até então inédito e que ainda não tinha sido registrado cientificamente.

É talvez o registro de nascimento de tartarugas dessa espécie mais ao sul do país! Além da captura ocasional em pescarias, a poluição do mar é apontada como uma das principais ameaças às tartarugas marinhas. Estudos indicam que a ingestão de resíduos sólidos como plástico mole, duro e madeiras é a principal causa da morte das tartarugas encontradas nas praias.

“É necessário uma tomada de consciência urgente em relação ao lixo, ao consumo excessivo, e este consumo gerando cada vez mais lixo. Devemos sentir a praia e o mar como nosso lar, nosso local de lazer e de contemplação. O lixo de uma cidade mostra o nível de consciência de seus moradores e da relação destes com a vida”, diz a oceanógrafa, que considera a Praia de Itaúna a mais linda do país, agora, revitalizada ambientalmente, com o nascimento das tartaruguinhas.

O Saquá 131 – Março/2011

Matéria publicada na edição de março de 2011 do jornal O Saquá (edição 131)

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