Adeus a Tiziana Bonazzola

Uma artista plástica que registrou magistralmente a paisagem de Saquarema

Tiziana Bonazzola e Mario Barata

Tiziana com o marido Mário Barata em sua casa na Tijuca (Foto: Hess).

Quando Barra Nova não era ainda um bairro e fazia parte do que então se chamava o longínquo Boqueirão, muito distante da Vila, o prefeito Jurandir Mello concedeu dois lotes em frente ao mar para o professor de história da arte Mário Barata. Casado com a artista plástica italiana Tiziana Bonazzola e pai de três filhos pequenos, o casal passou a frequentar Saquarema, antes mesmo da construção da ponte Rio-Niterói. No local, não havia luz, nem água e o único telefone estava instalado no antigo Hotel Caxangá, onde hoje é o Centro de Desenvolvimento do Vôlei.

Aquarela de Tiziana BonazzolaFoi no meio da mata de restinga do quintal, com flores sutis entre tons de verde, e no descanso do fim da tarde na praia, curtindo o vento e os tons vermelho e rosa do pôr do sol, no contraste com o azul infinito do céu e o branco das nuvens, que Tiziana viveu algumas das emoções mais incríveis neste país que não era seu, mas do qual foi se apropriando ao longo das décadas em que viveu aqui, gerou filhos e criou netas.

Italiana de nascimento, Tiziana chegou jovem ao Rio de Janeiro, onde trabalhou como pintora, foi professora da famosa Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues, e se tornou uma grande artista plástica, premiada em salões como o I Salão Ferroviário, do qual saiu vencedora, recebendo o prêmio do próprio presidente Juscelino Kubistechk. Mas seu grande orgulho foi a exposição retrospectiva no Museu de Belas Artes, no Rio, quando completou 70 anos.

Aquarela de Tiziana BonazzolaFalecida em fevereiro, pouco depois de ter completado 90 anos, Tiziana foi uma vencedora e uma guerreira. Na juventude, enfrentou o nazismo na Itália, durante a II Guerra Mundial, junto com o irmão e amigos na luta da resistência democrática. No Brasil, resistiu às perseguições impostas pela ditadura que cassaram seu marido, o genial professor Mário Barata, proibido de dar aulas na faculdade onde era catedrático, um cargo que só veio a retomar mais tarde, na UFRJ, depois da chamada abertura política.

Com sensibilidade à flor da pele, Tiziana suportou tudo e conseguiu transformar em cores suaves a paisagem que mais reteve em sua mente: o litoral de Saquarema. Na maturidade, Tiziana fez aquarelas com maestria, imprimindo no papel a luminosidade do oceano, a faixa branca da areia, o verde da vegetação nativa e o delicado arco-íris das flores e das trepadeiras de Saquarema. Estes quadros magníficos e delicados, de uma incrível expressão artística, foram em grande parte reunidos numa exposição no Museu Nacional de Belas Artes, mas deveriam um dia ser vistos também em Saquarema, a cidade que inspirou Tiziana, completando seu ciclo de vida e arte. Adeus, querida amiga.

O Saquá 131 – Março/2011

Matéria publicada na edição de março de 2011 do jornal O Saquá (edição 131)

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.