A periquita de Madona e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

A periquita de Madona

Quando os policiais enfiaram delegacia adentro o bando de baderneiros pego em flagrante lambuzando prédios públicos e residências particulares da cidade, um dos acusados, que disse ser estudante de direito, foi logo defendendo o grupo afirmando que eram antenados artistas designers grafiteiros e não pichadores do tipo molambentos que melecam paredes com símbolos de gangs de ruas ou de bairros.

Durante o seu depoimento o policial responsável pela prisão apresentou uma câmera digital onde filmou e fotografou os pichadores em ação, usando dezenas de tubos de tinta spray, borrando paredes e muros com palavrões e desenhos de sacanagens. Alguns dançavam funk, pelados, cachimbando crack, enquanto outros se masturbavam, gemendo, fumando maconha e comendo cachorro quente.

O que fez um desenho parecido com um beiço de vaca babando e soltando faísca disse que a “obra de arte” representava a cantora Madona em noite de tesão surubento e desvairado. O que pintou um velho de barba, nu, com cara de bicha destemperada e a bunda virada pra lua soltando pedras e fogo disse que era o peido de Papai Noel subindo aos céus no terceiro dia de desarranjo de angu com sarapatel e muita pimenta.

A moradora que chamou a polícia, disse ter sido ofendida e ameaçada e que chegaram a dizer que, se ela não tinha o que fazer, que comprasse um pente fino pra tirar os piolhos e os carunchos, pra ver se melhora a coceira que o marido tem nos pentelhos. Liberados, os acusados pagaram fiança e vão responder o processo em liberdade.

O extintor de Gumercindo

Chamada por um banhista a policia chegou e flagrou Gumercindo pelado numa choupana improvisada na praia, na maior tranquilidade vendendo pastel de siri que, quentinho da hora, era disputado por dezenas de freguesas.

Na delegacia disse que, quando fritava o produto, usava um avental, mas logo tirava porque o balcão tosco, forrado com folhas de coqueiros, tornava bem discreta a exibição que fazia, sendo ele o principal responsável pelo sucesso da venda e que, conhecido e disputado pelas comedoras de pastel, era chamado de “extintor de incêndio”, devido a cor avermelhada pela sua constante exposição ao sol e pelas suas exuberantes proporções agigantadas.

Disse que o sucesso era tamanho que chegava a vender mais de trezentos pasteis nos finais de semana, mesmo estando numa área de praia relativamente deserta, mas que as encomendas também bombavam, especialmente para entrega em domicílio, no período de segunda a sexta-feira. Durante o seu depoimento, afirmou: “a freguesia já conhecia as manhas e quando ouvia o borbulho da gordura na fritadeira, sabia que eu estava de avental e, de costas, mostrando a bunda cabeluda. Mas quando o chiado da gordura parava e o avental era descartado, o ‘extintor’ ficava à mostra no palco e era aí que o bicho pegava e a demanda era tanta que não havia pastel que chegasse”.

A fiança arbitrada pela autoridade policial foi paga por uma admiradora anônima, que ninguém sabe se é fã da massa do pastel, do recheio de carne de siri, ou simplesmente está afim de se atracar no extintor pra apagar o fogaréu.

Devorada no frango assado

As cachorras de Leontina que, segundo a vizinhança, junto com a dona vivem no cio, estão infernizando a vida dos moradores, porque, se não estão engatadas, estão uivando procurando machos e fazendo o maior inferno na Travessa do Tororó. É um tal de entra homem, sai cachorro e vice-versa, que ninguém sabe quem está cruzando com quem naquela paçoca de safadezas, gemidos e rosnados.

Zita, que mora ao lado e costuma subir no muro porque gosta de ver macho farejando perseguida, espalhou no bairro que, “pelos namorados, Tininha só é fungada, porque possuída, só é mesmo pelo cão dinamarquês que frequenta o local e que quando vê a caranguejeira da dona da casa, dá saltos de capoeira e devora a safada no frango assado”.

Quando tomou conhecimento do bochicho, Leontina foi tirar satisfações e as duas se engalfinharam na porrada. Em defesa da dona, a cachorrada partiu pra dentro e, dos pés a cabeça, espedaçaram Zita na dentada. Uma abocanhada que pegou no centro da cara deixou a fofoqueira zarolha e desbeiçada. Foram tantas mordidas que até a pomba da boateira foi descabelada na desavença.

Demolida e alinhavada com mais de oitenta pontos, foi chamada para prestar esclarecimentos sobre o incidente. Acompanhada pela família, enquanto esperava para ser atendida, alguém disse que ela ficou parecida com Frankenstein, só que muito mais feia. Diante da ofensa não aceita, a porradaria desabou tão feia nas proximidades da delegacia que engarrafou o trânsito e o comércio baixou as portas.

De volta ao hospital Zita foi recosturada, mas por estar toda inflamada e cheia de pustemas vai ficar capengando da batata da perna esquerda e impossibilitada de subir no muro pra ver Leontina sendo cafungada pelos machos e assando frango com o cachorro.

De quatro na gamela

Pedreiro de mão cheia, Eulálio, 28 anos, sério e carrancudo encarava as obras de calça e camisa de mangas compridas. Nos finais de semana, brilhando envernizado nos óleos de bronzear, barba e cabelos aparados no capricho, estacionava a moto incrementada, tirava a camisa com movimentos sexy e exibia os músculos ao sol desfilando de sunga na praia, sem dar confiança pras desavergonhadas derretidas, que cheias de trejeitos lançavam olhares desejosos de me come agora.

Durante uma empreitada na casa da viúva de 58 anos que vivia com o coração em langanho, imensa saudade entre as pernas e ao piano tocando músicas de lamentos, levou uma devastadora cantada que incluía, entre muitas outras coisas, o cartão do banco do falecido, com senha e tudo. Na primeira relação foi logo no tranco e no arremesso arregaçando a coroa no esfregaço. Em seguida bombou, escalpelou e esmolambou a raspadinha da coitada e na derradeira carcada estrunchou o pregueado e arrombou a porta dos fundos. A velha, muito da safada, embarcou no baculejo do – é isso mesmo que eu queria – e se entregou ao sadismo do pedreiro gostosão.

A primeira retirada da conta foi de três mil reais pelo vuco-vuco e mais a parcela pelo trabalho empreitado. Uma semana depois, na segunda noitada, amarrou a viúva pelos pés, pendurou de pernas abertas de cabeça pra baixo e fez todas as sacanagens conhecidas como “galinha na bicicleta”. De manhã, no banco, quando viu que não tinha dinheiro na conta, voltou pra casa escandalizou a parceira, berrou endiabrado sobre a quebra do acordo feito, escravizou a baranga na porrada, destruiu a penteadeira com as coleções de perfumes e de teteias de louça fina e sapecou fogo no piano de cauda.

Toda arrombada, a vítima deu queixa por agressão física e destruição de patrimônio. Antes de ser preso, Eulálio despachou nas caixas de correios da vizinhança e colou nos postes do bairro onde mora, uma montoeira de fotografias tiradas durante as sessões de sacanagens na casa da coroa, inclusive uma da viúva pelada, de quatro, com a bunda arreganhada pro alto, fuçando mandioca na gamela do chiqueiro junto com uma porca cheia de filhotes pendurados nas maminhas.

As hemorroidas de Aparício

Conhecido receptador de motos roubadas e especialista em assaltar residências, Aparício amanheceu morto, alagado numa poça de sangue. No IML constataram que a causa da morte foi uma doença no reto que, escondida, nunca foi tratada, sendo a principal causa da hemorragia e do consequente óbito.

No enterro, toda tascada, a mulher do defunto se descabelou, berrou no cemitério e, na beirola da sepultura, se despediu do marido com uma cachoeira de chororôs sobre o caixão e amaldiçoando as hemorroidas do defunto que, segundo ela, despencavam da bunda parecendo uma couve-flor e que explodiram inflamadas, vermelhas que nem beterraba cozida.

Enquanto soluçava relatando detalhes das reentrâncias das nádegas do falecido, um dos coveiros presentes perguntou baixinho se o rabo do sepultado era uma bunda ou uma caçarola de salada mista? Enquanto o outro comentou: “Se é como ela está dizendo, pra que um caixão tão caro? Podia ser enterrado numa quentinha.

Um parente de Aparício, que também é ladrão condenado e está em regime semiaberto, ouviu o comentário e, aos berros, disse que salada mista é a mãe do coveiro e quem deveria ser enlatado seria o pai dele, pra ser vendido como viado em conserva.

A irmã do morto disse que a culpada pela baixaria foi da esposa do defunto, por ter sugerido que o “furingo” do marido parecia uma rodela de beterraba. A confusão foi tão grande que, salvo o defunto, foi todo mundo parar na delegacia, onde choveu autuações por ofensas e agressões mútuas.

O Saquá 131 – Março/2011

Casos publicados na edição de março de 2011 do jornal O Saquá (edição 131)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.