Entupida no matagal e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Entupida no matagal

Ao prestar queixa na delegacia por estupro consumado, Dioneid, 56 anos, se declarou virgem até o momento em que o ato não permitido foi consumado em um matagal nos arredores da Grota do Surucucu. Disse jamais antes ter visto um bilau, quanto mais ter sido recheada por uma jibóia faminta e devoradora. Esfrangalhada contou detalhes da ação do tarado. Desmaiou três vezes durante o ato que durou seis horas. Entre sangue e suspiros relaxou impotente e viveu o momento em que era possuída e devastada pela impiedosa cobra esbaforida. Perguntada respondeu: “Se a porta da frente foi arrombada, imagine o estrago feito na dos fundos”. Impossibilitada de sentar disse, meio rouca, que por diversas vezes teve a garganta entupida e engasgada por ter sido jiboiada goela abaixo. Rasgada e esmulambada reconheceu, apontou e acusou Juvenal, 24 anos, conhecido penetrador corruptor de senhoras idosas. Ao depor sorrindo se declarou culpado e disse jamais ter sido denunciado por ser o consolo das velhas furunfadeiras encalhadas da Região dos Lagos. Três dias após ter saído do hospital, Dioneid, toda arreganhada, voltou à delegacia e retirou a queixa alegando que: “nessa idade cabaço não é virgindade, é um entupimento, um empecilho que Juvenal ajudou a remover”.

Entubado no cabo da enxada

Dirigindo em alta velocidade, carteira vencida e meio caolha e desfigurada de tão bêbeda, deu uma porrada no caminhão de gás, atropelou dois ciclistas, mergulhou desgovernada num valão e, mesmo toda lascada, deu entrada no hospital cheia de fogo na tarraqueta e expressão de profunda felicidade.

Na delegacia, Gabriella, 28 anos, disse que estava eufórica e incorporada por uma mistura de prazer vingativo e furor uterino ao ter recebido a notícia de que seu ex-marido Delson – que sem mais nem menos boiolou, soltou a franga na paróquia e, aviadado, se apaixonou e foi viver com caseiro do sítio do casal – estava hospitalizado em estado grave, após ter sido esquartejado na porrada, penetrado e entupido com um cabo de enxada e o sovaco perfurado com uma chave de fenda. Os depósitos em conta corrente e da gorda poupança sumiram junto com o caseiro que, recheado de grana pirulitou pro nordeste levando o Ford 2011, recentemente comprado em seu nome e presenteado pelo amante.

Segundo uma vizinha, as brigas por ciúme eram constantes, porque “ Delson era putanheiro, gostava de festa de sacanagem e traía o caseiro com a peãozada das obras. Eu só quero que devolva a minha enxada, que me pediu emprestada para capinar o jardim, mas que foi usada para enfiar pelo rabo adentro” – concluiu.

Desdentada no xilindró

Entupida até o talo, a casa de Nedina estava botando pelo ladrão os donativos arrecadados por ela na região. Tinha de tudo no cestão dos flagelados, desde carne seca de cavalo, beiço, fígado e mocotó de vaca salgados, até rabo de touro esfolado e bucho seco de boi. De fubá tinha mais de cento e cinquenta quilos, uns cento e vinte de arroz e o mesmo tanto de farinha. De feijão preto tinha trezentos e sessenta quilos. Água mineral engarrafada era mais de vinte seis pipas. As pilhas de caixas de salsichas e outros enlatados subiam pelas paredes e despencavam do teto. De leite condensado e loga-vida, nem dava pra contar às vacas que tiveram as maninhas espremidas para enlatar tanto produto. A sacaria de açúcar dava pra adoçar a lagoa e os alagados da restinga e a de sal, nem se fala.

Diante de tanta fartura, Getúlio, machão cheio de malandragens, namorido de Nedina e birosqueiro em outro bairro, resolveu transformar a tendinha num supermercado de periferia e partiu para ação. Pra conseguir a cumplicidade, passou uma semana sem descanso no funga-funga com a namorada. Foi tanto beijo na boca e rala-rala no assoalho, que Nedina ao concordar com o desvio e a venda dos donativos estava com os beiços inchados e a bunda em lama. Com preços imbatíveis vendeu tudo, faturou uma grana, esfarrapou a namorada na porrada e sumiu cheio de dinheiro. A vítima registrou a agressão, mas a polícia apurou os fatos e a queixosa foi presa. Quando as colegas de xadrez ficaram sabendo do desvio dos donativos, massacraram a cara de Nedina na grade de ferro do xilindró fazendo voar pedaços de dentes pra tudo quanto foi lado.

Arrebitada na motoca

Era só subir na moto do namorado que Geralda, 22 anos, arrebitava tanto a bunda que o cofrinho virava um container. Bunduda, exagerava empinada na garupa, jogando charme e lambendo os beiços pros homens pelas costas do quase marido, porque já estava com casamento marcado na agenda da família.

Quando Carlos foi alertado que estava sendo traído pelo bundalelê motorizado que ele estava proporcionando à namorada, vendeu a moto e comprou o carro grande, velho e enferrujado que, desengonçado e cadavérico, motivou a briga e provocou o desenlace. Ao se recusar a entrar no veículo, Geralda chamou o carro de galinheiro de favela e ouviu como resposta que era o lugar mais indicado para uma galinha safada e depenada como ela mostrar a bunda, o cofrinho e até a caixa registradora, porque antes de ser seu namorado foi seu cliente chegando a pagar pelas relações sexuais que mantiveram num barraco na Chatuba.

Presentes ao confronto, as famílias entraram na briga que se alastrou pela Favela do Congado e que teve até a participação do Corpo de Bombeiros para apagar o fogo que, ateado pelos brigões, devastou o carro que deu origem a confusão. O irmão da noiva, que por ter olhos rasgados, tipo asiático, tem o apelido de “seu xupaupau”, quando abriu a boca pra xingar um palavrão, tomou uma canivetada tão grande na goela que parece que vai ter que trocar de apelido. A mãe e a tia de Carlos, agredidas a pauladas por um tio de Geralda disseram aos policiais que o agressor é sanfoneiro, mas também é mariquinha, se masturba na frente de crianças e é ladrão de bomba de poço.

Todo mundo foi parar na delegacia, mas ninguém foi preso. Segundo informações colhidas no local, tão logo sarem os ferimentos dos encrenqueiros que tiveram as caras remendadas, o pau vai comer de novo no Congado.

Arreganhada na porteira

No sítio São Leopoldo, morava a viúva Clara, 31 anos, mãe de Carla, de 18, que namorava Demétrio de 26, garanhão conquistador aloirado de dois metros de altura, malhado no trabalho duro e acostumado a não passar nem um dia sem sapecar o fumo no cachimbo. No leito de morte Clara prometeu ao pai que casaria virgem e casta, mas Demétrio, seco pra papar a cabritinha, vivia soprando safadezas e contando histórias de sacanagens nos ouvidos da donzela. Cantava funks de galinhagens, desfilava de sunguinha asa delta, mijava no pasto durante os passeios pelo sítio e comprava revistas com fotonovelas pornôs pra instigar a namorada.

Na semana passada, quando voltou mais cedo do curso, Clara flagrou a mãe pelada, de quatro, gemendo arreganhada atracada no moirão na porteira. Demétrio nu, suado, roncava e relinchava atolado no maior vuco-vuco na buçanha da sogra. Dispirocada com a dupla traição pegou a velha espingarda de dois canos do pai falecido e sapecou fogo no casal. Um tiro acertou a clavícula do namorado que vai ficar sequelado com um braço parcialmente paralisado. O outro atingiu e esfrangalhou a cabeça do fêmur da mãe, que vai ficar guenza e capenga se arrastando torta pro lado esquerdo.

O Saquá 130 – Fevereiro/2011

Casos publicados na edição de fevereiro de 2011 do jornal O Saquá (edição 130)

Compartilhe!
Palavras-chave:

Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.