Violinista (quase) castrado e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Violinista (quase) castrado

Bonitinha e graciosa, Minele, 22 anos, filha única, chamada de Mika pela família, desde criança gostava de brincar de trepar nos muros, nos postes e nas árvores para se esconder entre os ramos, fazer balanço e se pendurar nos galhos com os meninos do bairro.

Cresceu menina livre, sapeca, brincalhona e tanto trepou que apareceu grávida, de gêmeos. De joelhos no terreiro jurou pro pai e pra São Lunguinha que era virgem, pura, imaculada. Pra mãe e pros Sãos Baltazar, Belchior e Salazar afirmou que botou a mão na surucucu, mas só fez um carinho no cabeção, porém para o tio ex-policial e para São Totonho confessou que foi Lilico do Violino, que envernizou o cabo, espichou e afinou as cordas do instrumento e sapecou a vara na rabeca. Foram três noites na salsa e na milonga sarabundando debaixo de pé de manacá. Furunfaram no tronco do jenipapeiro, atrás da moita de gurirí azedo e na soqueira de cambuím do brejo.

O pai, proferindo xingamentos, amolava a faca de capar porco pra decepar os bagos do violinista. A mãe horrorizada, de quatro, estirada na frente do oratório, pedia clemência para a filha desonrada. A irmã curiosa perguntava detalhes sobre o instrumento usado no defloramento. O irmão, assumido, esbravejava por não admitir a traição, porque também tinha sido arrombado no matagal por Lilico que, uma semana após a notícia ter sido espalhada no bairro, deu entrada no hospital, em estado grave, esburacado com quatro facadas no abdômen desferidas por um mascarado que, na escuridão da noite, tentou, mas não conseguiu, decepar o bilau do violinista.

O consolo de João Cavalo

No epicentro da sacanagem, durante a segunda lua-de-mel de um casamento reatado após seis anos de divórcio, Morféia, 29 anos, e o seu ex e atual recuperado marido, conhecido como João Cavalo, matavam saudades antigas pelados no quarto do motel Refúgio dos Cornos. Foram quatro noites de sodomia para cumprir o cardápio de safadezas inventadas pelo casal: destronca a alavanca, engatada na maçaneta, sabonetada na caranguejeira, peru soterrado, pic-nic uterino, espumeiro na caverna e pedalada no rodo anel. Irritados com a barulheira os outros hóspedes reclamaram e durante o confronto com o gerente do estabelecimento, que resultou em porradas e tiros, João foi mortalmente ferido na nuca.

Morféia, pelada, se jogou pela janela do segundo andar e, ao se esborrachar no chão quebrou a cara e as duas pernas. No local do homicídio a polícia encontrou a corpo da vítima, ainda nu, caído numa poça de sangue e urina. Entre grande quantidade de envelopes de estimulante sexual, garrafas de bebidas e filmes pornôs, a perícia achou um grande consolo de borracha que, segundo declarações de Morféia, era de uso exclusivo de João Cavalo e foi o seu fiel companheiro nas noites solitárias durante os seis anos em que estiveram separados.

Perereca com pimenta

Apelidada de Caneca, Arine, 72 anos, cabelos brancos, enrugada, quando era chamada velha respondia: “quanto mais neve no teto mais fogo na lareira”. Durante a semana, de casa em casa vendia molho pronto da malagueta, pimenta que cultivava no quintal, mas aos sábados tomava umas cachaças e caia no fandango do curral das éguas. Descacetada no forró derretia a pereca ciscando na dança da galinha poedeira. Assanhada, se sentindo atriz pornô, mostrava a cabeluda no funk do arriba a saia, enquanto a clientela gritava e aplaudia o show da vovó foguenta que, no final da noite, sempre rebocava qualquer garanhão disposto a ver a coisa preta. Sem saber do passado do último pretendente, levou pra casa um tal de Olegário, conhecido como Carandiru, que quando viu a velha pelada recebeu um exu purgatório, promoveu a maior quebradeira na casa e esmigalhou a idosa na porrada. Assassino, já tendo cumprido penas por dois homicídios, Carandiru, depois de amarrar e espancar, jogou um litro de molho de pimenta na perseguida de Caneca, que continua internada toda queimada por baixo.

Farofada no cemitério

No dia de finados, quando Lolita entrou no cemitério carregando um bouquet de flores de plástico em baixo do braço, deu de cara com a sepultura do marido toda enfeitada com saudades roxas e lírios brancos do campo e uma mulher se debulhando em lágrimas. Interpelada, Anita disse que mora em São Paulo e que ali estava sepultado Olavo, homem com quem viveu maritalmente e pai dos seus dois filhos. A farofada começou quando a esposa do defunto tirou uma certidão de casamento da bolsa, esfregou na cara da chorona e ainda deu uma coça na paulista com as flores de plástico. A amante respondeu a agressão com um porrão tão grande na cara da proprietária oficial do defunto que Lolita se estabacou dentro do buraco de uma sepultura aberta, cheia de água, lama e pedaços de caixão. De dentro da catacumba continuou xingando, chamando a outra de piranha do Morumbi, galinha da Ponte Espraiada e de biscateira da Marginal, enquanto Anita andava pelo cemitério procurando uma pá “pra acabar de sepultar a prostituta do camelódromo, que quando Olavo estava vivo foi tão fiel ao marido como uma cachorra no cio”. A segunda esposa saiu do cemitério escoltada por parentes. Lolita foi retirada do buraco com a ajuda de populares e afirmou que vai entrar na justiça com um pedido de guarda definitiva do defunto.

O passarinho de Anísio

A venda ilegal de pássaros e outros animais silvestres faziam com que Anísio desfrutasse de uma boa situação financeira. Num viveiro na casa do vendedor, o fruto do cruzamento entre um quero-quero e um pica-pau, nasceu um filhote imediatamente chamado pelos passarinheiros de “quero-pica” que, em seguida, virou o apelido odiado por Anísio e motivo de muitas e sérias desavenças no bairro onde, se não estava traficando animais, estava bêbedo ou fumando um baseadinho. Doidão, quando era chamado pelo apelido, costumava baixar a bermuda ou a sunga e mostrar o “filhote do cruzamento”. Numa dessas ocasiões, um morador que achou que a namorada gostou do que viu, deu oito facadas na vítima na frente de dezenas de testemunhas. Quero-pica morreu de bruços no meio da rua, com as calças arriadas até o joelho e com a jiboia toda ensanguentada.

O Saquá 127 – Novembro/2010

Casos de polícia da edição de novembro de 2010 do jornal O Saquá (edição 127)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.