Entrevista com o deputado Paulo Melo

Eleito com 50% dos votos de Saquarema, o deputado mais votado no PMDB disputa agora a presidência da Assembleia Entrevista com o deputado Paulo Melo

Paulo Melo

Primeiro lugar do PMDB e quarto mais votado no estado, Paulo Melo teve um total de 121 mil votos,
sendo 19.919 em Saquarema. Foto: Edimilson Soares.

O deputado estadual Paulo Melo é um autêntico filho da terra. De origem humilde, com pai pequeno agricultor, meeiro de uma fazenda e depois pescador e mãe parteira, nascido numa família numerosa, com muitos irmãos, ainda adolescente saiu de Saquarema para se aventurar no Rio de Janeiro, onde chegou a ser albergado na Fundação Leão XIII. Trabalhando como vendedor de cocada, desde menino, em Saquarema e auxiliar de serviços gerais, no Rio de Janeiro, foi engraxate e vendedor de picolé em Copacabana, com pouca chance de estudar, mas aprendeu na rua a sobreviver a todo tipo de adversidade. Aos 16 anos, foi levado pelo Juizado de Menores e teve a cabeça raspada, numa época em que ainda não havia o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Trabalhando numa agência de automóveis, em Botafogo, aos 17 anos voltou a estudar no Mobral. Acumulando o trabalho na agência com a construção civil, recém casado e com um filho, sofreu o maior abalo de sua vida quando a esposa, grávida de seu segundo filho, morreu numa explosão em casa, no aquecedor. Paulo ficou perdido. Mas em 1984, já participava do movimento SOS Criança, voltado para as crianças de rua, porta de entrada para a política. Em 1986 foi candidato a deputado, por um partido pequeno e não teve êxito. Porém, em 1988, de volta a Saquarema, foi eleito vereador, aos 31 anos de idade, e em 1990 deputado estadual. Em pouco tempo já se destacava na Assembleia Legislativa (ALERJ), por sua atuação na Comissão da Criança e do Adolescente, quando foi convidado a ir à Inglaterra fazer a defesa das crianças de rua brasileiras. Logo se tornaria líder do governo Marcelo Alencar, uma função que também exerceu nos governos Garotinho, Rosinha e Sérgio Cabral.

Hoje, reeleito para seu 6º mandato, com a maior votação no PMDB, Paulo Melo disputa serenamente a presidência da ALERJ, com apoio da bancada do governo e do próprio governador Sérgio Cabral, reeleito com cerca de 66% dos votos válidos. Caso isto ocorra, será um feito histórico para um político da Região dos Lagos. Nenhum político local foi tão longe e esteve tão próximo do cargo máximo do Poder Legislativo, um dos três poderes do Estado, ao lado do Executivo e do Judiciário. Com cerca de 50% dos votos válidos do eleitorado de Saquarema, Paulo Melo está feliz com o resultado da eleição. Ao lado da esposa, a prefeita Franciane Motta, entre correligionários e amigos, com uma aliança política bem sucedida com o ex-prefeito Dalton Borges, outro campeão de votos, comemora mais uma vitória que consolida o seu perfil de vencedor.

O SAQUÁ – Como o deputado mais votado de Saquarema e o 4º mais votado do estado do Rio de Janeiro analisa esta eleição?

Paulo Melo – Acho que Saquarema é especial. Durante muito tempo eu paguei um preço alto por participar de um grupo político onde o líder local (o ex-prefeito Antonio Peres) não era popular, não tratava o povo com carinho. Por fazer parte deste grupo, isso respingou em mim e eu paguei um preço alto. Essa foi uma eleição que, antes de tudo, marca a minha reaproximação com o povo de Saquarema. Eu acho que aquela frase de Nelson Rodrigues – me perdoe por me traíres – para mim é o inverso: obrigado por me traíres! Assim, eu fiquei limpo. Estou bem, me sentindo à vontade. Saio na rua com a minha mulher, que está se tornando uma política, que não era… Ela gosta das pessoas, gosta do povo. Estou com o Dalton, que é outra pessoa popular, que também gosta do povo. Na realidade, a traição que eu sofri foi a minha carta de alforria na política de Saquarema. Eu agora estou tranquilo. Acho que poderíamos ter atingido mais; a abstenção foi grande. Em Araruama, infelizmente, não foi como eu esperava; esqueceram daquilo que é fundamental: a gratidão. Lá eu tive uma perda de 10 mil votos, mas em outros lugares compensou a perda que eu tive em Rio Bonito, Tanguá e Araruama. Eu tive 121 mil votos, em todo o estado do Rio de Janeiro, nos 92 municípios. Tive votos de qualidade na capital: o governador é meu eleitor, o Eike Baptista votou em mim, quase todos os secretários do governador votaram em mim. Então, eu estou muito contente, estou bem, estou leve. Agradeço demais os votos que tive, porque são votos do trabalho; não é voto de estrelismo, porque não apareço em televisão; não são votos de opinião pública. Eu tive votos onde trabalhei. Em Saquarema, especialmente, foi um voto em que o povo não aprovou a traição, porque é muito duro você ajudar tanto uma pessoa como eu ajudei e essa pessoa se prestar ao ridículo papel de ir para cima de um caminhão falar mal de mim. É triste e o povo não aceita isso. Quem pensa que o povo aceita traição, está enganado! A prova disso é a ridícula votação que ele (o ex-prefeito Peres) deu para seu deputado federal (Alexandre Santos) que, diga-se de passagem, é um deputado que é amigo meu; “dobrou” comigo em Niterói e outras localidades. Eu participei em Saquarema de dois eventos marcantes: um no meu comício final e outro na festa da vitória, domingo à noite, depois da apuração, quando eu vim do Rio, onde estava com o governador Cabral. E eu vi o povo feliz! Aqui, posso andar no meio do povo, o povo me abraça, me belisca, me beija. Estou muito feliz!

O SAQUÁ – Qual foi o município que deu a maior percentagem de votos para o deputado Paulo Melo?

Paulo Melo – Dessa vez foi Saquarema: 50% dos votos da cidade. Tive também alguns municípios que se incorporaram à minha trajetória, onde eu não tinha história de voto, como o município de Cabo Frio, onde obtive 5.500; no município de São Pedro d’Aldeia eu tripliquei minha votação; em Iguaba eu mantive a minha votação; e tive 20 vezes mais votos no município de Arraial do Cabo. Já agradeci muito a Deus, porque a gente tem que agradecer o tempo inteiro. Eu conheço a minha história, sei das minhas dificuldades, sei como eu comecei, sei o que eu tive que andar, as estradas de pó onde caminhei, os obstáculos que eu tive que superar um a um. E, quando se está nessa posição, tem que se agradecer muito a Deus, aos meus amigos e aos meus eleitores, com uma grande expectativa de poder ser presidente do Poder Legislativo, da Assembleia Legislativa. Eu estive com o governador Sérgio Cabral, no Palácio Laranjeiras, porque ele me convidou para estar com ele e com a família dele durante a apuração. Conversamos muito. Ele me pediu calma. Disse que sou o candidato dele, o candidato do governo e que ele, pessoalmente, vai se empenhar na minha candidatura para presidente da ALERJ, como também o quase senador Picciani – foi uma lástima ele não ter entrado – porque seria um grande senador, grande líder político, com 3 milhões de votos, uma fantástica votação; ele também irá me ajudar. Estamos construindo uma estrada com tranquilidade, sem pisar em ninguém, sem brigar.

O SAQUÁ – Vamos relembrar a sua trajetória política, qual foi a sua progressão de votos?

Paulo Melo – Na primeira eleição para deputado, foram 8.643 votos. Depois, em 1994, foram 11.528. Em seguida, em 1998, foram 66 mil e um pouquinho… Em 2002, foram 82.940 votos, quase 83 mil. Em 2006, foram 109.468 votos e, agora, 121 mil e mais um pouco, se eu não me engano 634…

O SAQUÁ – É uma progressão significativa…

Paulo Melo – É lógico. Eu pensei em parar; essa seria minha última eleição. Estou refletindo sobre isso. Mas uma coisa eu sei: o dia que eu não for aprovado pelo povo, se eu for candidato e tiver menos voto do que eu tive, é porque meu trabalho não está convencendo e está na hora de eu parar…

O SAQUÁ – Não é o caso. A cada eleição aumentam os votos e o reconhecimento do povo.

Paulo Melo – É o reconhecimento do povo, sim! Fora o Marcelo Freixo, que foi um deputado de opinião, pois a esquerda no Rio escolheu ele para votar; fora o Wagner Montes que é uma estrela da televisão; fora o Samuel Malafaia é da igreja; o único político que teve votos no trabalho e que aumentou fui eu! Isso é muito gratificante.

Nascido e criado em Saquarema, nesta eleição Paulo Melo reencontrou sua veia popular, tendo sido abraçado, beliscado e beijado pelo povo nas ruas, com apoio da esposa, prefeita Franciane Motta e do ex-prefeito Dalton Borges. Foto: Waldo Siqueira.

Nascido e criado em Saquarema, nesta eleição Paulo Melo reencontrou sua veia
popular, tendo sido abraçado, beliscado e beijado pelo povo nas ruas,
com apoio da esposa, prefeita Franciane Motta e do ex-prefeito Dalton Borges.
Foto: Waldo Siqueira.

O SAQUÁ – Como vai ficar a política local em Saquarema?

Paulo Melo – As coisas estão mudando. Hoje, na prefeitura, Franciane não tem mais câmera na entrada do gabinete para saber quem é bonitinho e quem pode entrar. Antigamente, quem era pobrinho não entrava. Isso agora acabou! A minha mulher entra e sai pela porta da frente da Prefeitura, coisa que o ex-prefeito só fez quando se elegeu e quando saiu; nunca entrou pela porta da frente! Estamos humanizando a política da cidade e humanizar a política é fazer a política com sentimento, coisa que não existia. Mas a gente ainda vai conversar. Franciane não está convencida de que deve disputar a reeleição. Acho que é um processo de amadurecimento. Além disso, eu não quero o poder pelo poder. Eu não me locupleto com o poder; não uso a prefeitura para nenhum fim pessoal. A gente não mistura a rés pública com a rés privada. Quando ando em Saquarema, tenho absoluta certeza que, mesmo aqueles que não votam em mim, reconhecem o meu trabalho. No momento certo as coisas acontecerão.

O SAQUÁ – Quais as suas considerações finais?

Paulo Melo – Só obrigado ao povo de Saquarema. Ao povo de Araruama, eu agradeço também, apesar de ter perdido 10 mil votos lá, mas não foi por causa do povo; foi porque nós erramos, porque a prefeitura não está atendendo as expectativas que a população tinha. Temos que consertar o rumo. Agradeço a toda Região dos Lagos, ao Norte e ao Noroeste fluminense; à Região Serrana, muito obrigado. Estou tendo muito mais do que mereço, muito mais do que eu esperava na minha vida. É um grande privilégio poder soltar a voz para falar em nome de 121 mil pessoas.

Capa O Saquá 126

Entrevista publicada na edição de outubro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 126)

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.