Degolada no canil e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Degolada no canil

Quando uma amiga de forró afirmou que a mulher do caçador Juca Zanjão, 65 anos, era estradeira e que gostava mesmo era de amassar uma mandioca grossa na boleia do caminhão, não faltou quem soprasse a novidade nos ouvidos do marido que, furioso, foi chegando em casa e querendo saber que sacanagem era essa que a mulher estava metida.

Durante o interrogatório familiar, Juneida, 32 anos, escorregou na pista e acabou confessando que Zanjão, por ser careca, era ainda mais corno do que o resto dos chifrudos que frequentavam o forró dos caminhoneiros. Que por ter passado dos sessenta, mesmo aditivado, nem no tranco pegava e que com ele não tinha qualquer prazer, porque a sua garagem foi feita pra carretão e não pra pernoite de fusquinha. Disse que o pneu de Juca tá tão murcho que nem soprando calibra e que o negócio dela é ser acelerada e, descacetada, despencar morro abaixo pela ladeira da sacanagem.

Quando a polícia chegou encontrou Zanjão com um machado ensanguentado na mão, sentado na porta do canil ao lado da cabeça degolada de Juneida. O corpo, na cozinha, junto ao fogão, estava parcialmente queimado. A perícia concluiu que ao ser decapitada, durante a queda a vítima esbarrou, derramou e foi atingida pelo conteúdo do panelão de ensopado de bertalha com o gambá que Zanjão tinha caçado na noite anterior.

A fogueteira da pomba preta

A rua escura do bairro pobre ficou um angu de lama depois da chuva. Bebo, Zenóbio, 54 anos, metido a compositor, agarrado com Elenice, de 50, sua esposa, que também estava no maior porre, caminhava para casa cantando uma música de sua autoria chamada “a pomba da nega é preta”. Quando o casal passou na frente da casa de Felícia Fogueteira, resolveu fazer um sexo e continuar cantando, atolado no lamaçal. Lá pelas tantas, sem conseguir dormir, a vizinhança começou a esbravejar: “Vai cantar na casa do cacete seu pinguço safado. Fecha essa latrina, seu corno cachaceiro. Cala essa boca antes que eu te encha de porrada, seu velho lambedor”.

A fogueteira, que já tinha até perfumado as virilhas e descolorido a mexerica para impressionar o “namorido”, ficou irada com a cantoria perturbadora, passou a mão em dois morteiros de três tiros, acendeu e mirou na cara de Zenóbio. Foi um estrago só. O nariz virou pelo avesso. A boca ficou um bueiro sem tampa. A bochecha ficou pendurada na nuca. A orelha decolou e ficou grudada no pau da gaiola do papagaio e um olho foi parar na poça de lama, no outro lado da rua. Os longos cabelos de Elenice incendiaram e viraram uma coivara de fogo. A dentadura derreteu, a maminha esquerda explodiu e a direita ainda estão procurando. Uma testemunha disse que um vira-lata comeu porque estava bem assadinha. Desentalado, o casal foi removido para o Rio onde faleceu ao dar entrada no hospital.

No interior da casa foi encontrada grande quantidade de bomba cabeção de negro, busca-pé, foguetão, rojão e rodinha lacrimosa, que ela gostava de queimar à noite para chamar a freguesia. Felícia foi preza em flagrante e, por duplo homicídio, pode pegar até dezoito anos, tempo bastante para soltar, à vontade, rodinha na cela do presídio.

Nheco-nheco no bambuzal

Com um fecho na cabeça, Evilázio, 59 anos, vendedor de lenha, voltava da Restinga quando escutou um nheco-nheco atrás da moita. Escondido levou mais de uma hora vendo um casal camuflado rosetando na macega. Quando a filha Marina, de 22, chegou em casa e disse ter demorado porque estava no templo envolvida pelo culto das reflexões celestiais, em resposta o pai falou sobre o pecado da mentira e disse que ela estava era fazendo a novena do arreganha as pernas e a oração da pexereca lambuzada. Aos gritos afirmou ter visto até o tamanho do santo que ela engoliu inteirinho atrás da moita de bambu cutuca por baixo.

Quando a filha chamou a mãe e jurou que não era ela, Evilázio mandou que mostrasse à bunda, afirmando que estava toda picada de formiga saúva e crivada de carrapatos de vaca, acrescentando que as tetas, de tanto o macho fazer “sanguessuga nas maminhas”, ficaram esmulambenta e encardida, parecendo esfregão de bucha de pia velha. Descacetada de vergonha, Marina se jogou de ponta cabeça no fundão de um poço seco existente nos fundos da casa e levou duas horas até ser resgatada pelos bombeiros. Em coma, deu entrada no hospital apresentando deslocamento de vértebra, profundo corte no couro cabeludo e extensa fratura de crânio.

A vingança do traficante

Francisca, vulgarmente chamada e conhecida como Fancha, 32 anos, não olhava pra cara, não queria ouvir falar, não tinha amigos da raça macho ou sequer dava papo pro sexo oposto. Homem pra ela só tinha uma forma de ser tratado: na porrada.  O negócio dela era um esfregaço na gambá banguela, um tchaca-tchaca na raspadinha no fandango do Rala a Pomba na Lamparina, no baile do Bueiro das Encalhadas, lá pros lados de Jacarepiá/Maçambaba. O seu traje de gala era macacão jeans e botina de couro. Pra conquistar as garotonas e demonstrar masculinidade, gostava de azedar o caldo a fim de mostrar quem era a pentelhuda do pedaço.

Num domingo ensolarado, estava batendo paquera na praia de Itaúna quando viu uma gostosona, pagando bundinha, cravada no menor fio dental do mundo. Aí endoidou o arranque e deu uma cantada escrota e escancarada na mulher, que é esposa de um traficante do Rio e que contou pro marido detalhes do “assédio de Fancha”. Apontada e sutilmente investigada foi fotografada pelos seguranças do fora da lei.

Dias depois Francisca teve a sua casa invadida por quatro parrudões armados, vasilinados e prontos pra obturar a vala da tarada de Itaúna. Rançosa e fedida, foi obrigada a se lavar e a raspar a juba da perereca com uma navalha cega enferrujada. Algemada e amordaçada, a quadrilha varou à noite arrolhando a buzanfa e entupindo a butchaca da vítima, praticando exercícios de revezamento de estupro sem camisinha.

Segundo vizinhos, por determinação do comando do tráfico, Francisca está sendo obrigada a usar vestido, calcinha e porta-seios, além de forçada a parar de tomar hormônio para crescimento de barba, bigode, da cabeleira do sovaco que ela espichava com chapinha e dos pentelhos que desenrolava com escova progressiva.

O macho da macumbeira

Já fazia seis meses que Gerônimo vinha pegando a vizinha, mas foi logo avisando que a pegada era sem compromisso porque gostava mesmo da esposa.

Na sexta-feira, meia-noite do dia 13 de agosto, fissurada no bom de cama, Esmeralda e mais duas amigas macumbeiras despacharam um vodu poderoso na porta do desejado. Dentro de uma miniatura de caixão, colocaram o retrato e duas figuras de diabos, feitas com absorventes da mulher de Gegê, que as macumbeiras cataram no lixo da casa. Dentro de um alguidal cheio de sangue, afogaram uma boneca de pano com a perereca crivada de alfinetes e a parte superior de um abacaxi cravado na bunda.

Ao lado colocaram um sapo-boi, vivo, com o nome da destinatária do feitiço junto com um punhado de pimenta fogo no rabo costurado na boca do bicho. Treze velas vermelhas, com feitio de pênis, foram colocadas ao redor de sete aranhas caranguejeiras pretas, cabeludas. Uma pomba, viva, depenada e esfregada com urucum do cemitério, teve os pés colados num coração de boi, coberto com pingos de cera quente de vela de catacumba.

Numa caveira de bode, com os chifres enrolados com fitas vermelha e preta, em cada buraco dos olhos enfiaram um papel parcialmente queimado com o nome de Delfina, esposa de Gerônimo que, irado com o feitiço, esbagaçou na porrada as duas macumbeiras, Esmeralda, o marido e o filho de 26 anos, lutador de caratê que teve que ser operado após ter tido os dois pulmões perfurados com os chifre da caveira do bode da macumba.

Após a confusão Gegê, procurado pela polícia, sumiu no mundo e foi baixar em outro centro.

Capa O Saquá 126

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Casos publicados na edição de outubro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 126)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.