Os sambaquis de Saquarema

Filomena Crancio no Sambaqui

A arqueóloga Filomena Crancio sempre atenta às invasões nos sambaquis de Saquarema.
Foto: Divulgação/Willian.

Por: Filomena Crancio

Sítio arqueológico é um local onde são encontrados evidências de culturas passadas. O sítio arqueológico de ocupação litorânea característico da região de Saquarema é o sambaqui. Os sambaquis são “Bens Nacionais”, protegidos pela Lei Federal 3924 de 26 de julho de 1961. Sambaquis são antigos locais de moradia temporária de comunidades pré-históricas, cuja subsistência era baseada na coleta animal e vegetal, pesca, caça e onde exerciam as atividades domésticas, artesanais e cerimoniais. Seus habitantes viviam organizados em pequenos grupos familiares. Os sambaquis têm a forma de colinas que foram formadas pela ação humana e não por forças da natureza.

O sambaqui é formado por camadas arqueológicas superpostas que representam sucessivas ocupações humanas, sendo que as camadas depositadas primeiro são as mais antigas e as camadas superiores as mais recentes. Os habitantes dos sambaquis, os sambaquieiros, sepultavam seus mortos segundo rituais peculiares, no próprio local de moradia. Porém, sambaqui não é um cemitério e muito menos cemitério de índios, pois os índios aqui chegaram depois dos sambaquieiros.

A arqueóloga e professora Lina Maria Kneip, especialista no estudo dos sambaquis, apresentou às autoridades municipais de Saquarema, no período de 1975 a 1978, projeto sugerindo a criação de uma “Reserva Arqueológica e Ecológica de Barra Nova – Saquarema – RJ”. Na época, foi aprovada apenas a criação de uma praça municipal, que hoje é a Praça do Sambaqui da Beirada. O Sambaqui da Beirada, datado de 4520 anos AP (Antes do Presente), é a mais antiga ocupação humana do município de Saquarema. Pesquisado no decorrer de 1987 por uma equipe interdisciplinar de especialistas no campo da arqueologia, antropologia biologia, botânica, geologia e zoologia, sob a coordenação da professora Lina Kneip, do Museu Nacional/UFRJ, o Sambaqui da Beirada encontra-se protegido na Praça do Sambaqui da Beirada, inaugurada em 31 de maio de 1997, sendo a primeira exposição arqueológica ao ar livre de um sambaqui no Brasil.

Valor cultural

Na Praça do Sambaqui encontra-se também preservada densa vegetação de restinga, representada pela disposição em mosaico, composição florística e espécies de valor medicinal e alimentar. Aberta à visitação pública, a Praça do Sambaqui da Beirada se localiza na confluência da Rua do Sambaqui da Beirada com a Rua Arqueóloga Lina Maria Kneip, em Barra Nova, próximo à Avenida Litorânea. Ao lado do Sambaqui da Beirada há também outro sambaqui, o Sambaqui da Pontinha, no loteamento Jardim Barra Nova. Datado de 1790 anos AP (Antes do Presente), é o único sambaqui do Brasil que apresenta hábitos funerários de cremação por toda sequência arqueológica. Nestes dois sambaquis, pode-se observar como os sambaquieiros eram artesãos hábeis na arte de lascar o quartzo, produzindo artefatos lascados bem elaborados e em grande quantidade.

Apesar de próximos geograficamente, o Sambaqui da Beirada e o Sambaqui da Pontinha não são um mesmo sambaqui. Além das variações culturais significativas entre os dois, existem as variações cronológicas. O Sambaqui da Beirada é o mais antigo no município e o Sambaqui da Pontinha o mais recente dos sambaquis de Saquarema. Próximo ao sambaqui da Pontinha situava-se, antigamente, entre a atual rua M e as margens da lagoa, o sambaqui Mário Nunes, localizado em 1975 e hoje destruído totalmente.

Há ainda em Saquarema o Parque Arqueológico e Ecológico de Jaconé que ocupa vários lotes da quadra 29 do loteamento Manitiba. O Sambaqui de Jaconé ainda não foi pesquisado, apresentando-se coberto por densa vegetação de restinga, no interior do Parque. Há pouco tempo, este sambaqui foi parcialmente destruído por obras de loteamento, encontrando-se, agora relativamente preservado. O Sambaqui de Jaconé foi datado em 3760 anos AP, em sua base, e em 3350 anos AP em sua superfície.

É preciso que se esclareça que não existe entorno de sambaqui como área arqueológica, do ponto de vista científico, mas sim como valor ecológico e turístico, agregado ao sambaqui, que pode ser uma faixa da mata nativa. A principal razão para a proteção dos sambaquis de Saquarema é em virtude de seu valor intrínseco como fonte de conhecimento sobre a cultura do homem pré-histórico brasileiro. Os graves danos causados aos sambaquis pela retirada de terra do solo arqueológico são irreversíveis.

Leia também:
Convênio para proteger os sítios arqueológicos saquaremenses

Capa O Saquá 126

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Matéria publicada na edição de outubro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 126)

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