A onda vermelha delirou e tomou caixote da onda verde

Opinião - Silênio Vignoli

Não deu outra. O clima de “já ganhou” porque as pesquisas “já decidiram”, como tudo levava crer, era mesmo artificial. Visava apenas blindar uma frágil peça fabricada nas linhas de montagem do marketing político, essa atividade que, cada vez mais, influi manipuladamente na resposta política dos cidadãos brasileiros. A necessidade de realização do segundo turno, contra a previsão dos institutos de pesquisa, alijou a prometida vitória do governo com a chamada “onda vermelha” que tomou um caixote da avassaladora onda verde.

Havia uma certeza muito grande de vitória que o resultado das urnas nos transformou em receio de derrota no segundo turno. Os votos que faltaram para a vitória, no primeiro turno, estão sendo explicados por diversos óticas e nem mesmo o presidente Lula escapa das críticas. A cúpula da coordenação de campanha de Dilma concluiu que é imprescindível o presidente baixar a bola no segundo turno, porque sua impetuosidade, ao estilo “dono do país”, acabou subtraindo votos de Dilma. O comando da campanha de Dilma admite que houve “salto alto” no primeiro turno e que será preciso “humildade para se aproximar do eleitorado de Marina: “É jogar o salto alto e a blindagem na lata de lixo. Agora tem que usar sandálias hawaianas” – esbravejou o líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Alves. Ou seja, tem que ser outra Dilma. E os eleitores vão indagar: “Em que Dilma eu voto? Nesta ou na do primeiro turno?”

Dilma está mais perto do mandato do que Serra. Esta possibilidade é até matemática. Dilma entra no segundo turno precisando de pouco mais de quatro pontos percentuais para vencer. Já o Serra tem que tirar votos de Dilma, além de receber a maioria dos votos de Marina. Mesmo que consiga algo em torno de 80% da votação da candidata verde, Serra não ganha se não conseguir tirar eleitores de Dilma. Não se pode esquecer que Marina deixou o governo e depois o PT porque não conseguiu convencer Lula de que a questão do meio ambiente é essencial para um crescimento sustentável, rumo ao futuro e um dos principais obstáculos que encontrou pela frente foi a visão desenvolvimentista de Dilma Rousseff. Marina e Dilma sempre percorreram trilhas opostas. Assim, não há motivo para Marina acreditar que, num futuro governo Dilma, a coisa seja diferente. Lula e Dilma têm plena consciência disso e pressionam o PT para propor ao PV e Marina a neutralidade na disputa do segundo turno.

Do outro lado está o PSDB, partido que, no primeiro turno, elegeu mais governadores: no Paraná, em São Paulo, Minas e Tocantins. E vai disputar o segundo turno em cinco outros estados com chances de vitória: Goiás, Pará, Roraima, Piauí e Alagoas. Se totalizarmos quantos brasileiros, somando os estados em que o PSDB e o DEM venceram com aqueles em que os tucanos disputarão o segundo turno com boa chance de vencer, poderão vir a ser governados pela oposição, chegaremos ao equivalente à metade do país, o mesmo podendo-se considerar em relação às receitas tributárias. Não é demais acrescentar que o DEM venceu, no primeiro turno, em Santa Catarina e Rio Grande do Norte, justamente dois dos candidatos em que o presidente Lula se empenhou ao máximo para “exterminar politicamente” seus adversários. Com os resultados do primeiro turno, o país está dividido sem que a grande popularidade do presidente reflita uma dominação política territorial.

Capa O Saquá 126

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Artigo publicado na edição de outubro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 126)

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.