Morreu o poeta Latuf que cantou o mar e a lagoa de Saquarema

Por Dulce Tupy

Um poeta nunca morre. O poeta sobrevive nos seus versos. E, assim, Latuf Isaias Mucci sobreviverá para sempre nas páginas de seu livro Águas de Saquarema, uma homenagem à cidade onde viveu os momentos mais intensos de seus últimos 30 anos. Morador do Porto da Roça, era nas margens da lagoa ou na beira do mar que ele se deliciava com a paisagem, o clima, o ambiente, a natureza e as pessoas de Saquarema. Nascido e criado em Minas Gerais, foi aqui, no litoral fluminense, que o erudito Latuf,  professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) encontrou a paz que tanto buscou em suas andanças pelo mundo: Itália, França, Bélgica, Inglaterra, China, Argentina, Líbano…

“Como definir Latuf, professor, semiólogo, acadêmico, poeta e sobretudo amigo?”, pergunta-se o jornalista e escritor espanhol Juan Arias, também morador de Saquarema, no Perfil de Latuf, uma apresentação que Latuf adorava, publicado na introdução de seu livro Águas de Saquarema, editado pela Tupy Comunicações, e no Blog do Latuf.

“O professor amado pelos alunos une em sua personalidade, onde permanece vivo o menino que dorme em todos nós, as qualidades da fonte e da água; cântaro de essências e rios de alegria. Pedra e mel. Roma, a Gregoriana, a Universidade mais famosa da Igreja, descortinou para ele a fragilidade da fé e dos dogmas. Liberou seus sonhos, o fez homem. As viagens lhe abriram o mundo; os livros – sua casa – lhe revelaram o saber. Saquarema o consagrou: sacerdote dos mares e dos entardeceres. Poeta quando escreve e quando sonha. Paradigma e metáfora do belo, da inocência. Mestre da amizade! Meu amigo!”, escreveu Juan sobre Latuf, o amigo que passou por sua vida como um cometa, frequentador assíduo de sua casa na beira mar, onde era recebido como um príncipe por Roseana Murray, esposa de Juan e grande poeta, talvez melhor amiga de Latuf nos últimos anos…

Águas de Saquarema - Latuf“Latuf ancora seus poemas, como barcos feitos de luz, no mar de Saquarema. Mar imenso e selvagem. Os ventos do cotidiano, com suas estrelas e sonhos e flores atravessam sua poesia: os poemas oscilam, belos e oblíquos, e nunca se desnudam por inteiro. Há sempre algo que escapa a um primeiro olhar, como o mar que esconde suas cidades submersas e sereias”, escreveu a poeta Roseana na contracapa do livro Águas de Saquarema. Latuf também amava Roseana, a amiga que todas as sextas-feiras fazia um lanche especial para ele saborear, com seus pães caseiros e outras cositas más, que tanto encantavam Latuf. Ali passavam-se horas de pura conversa, regada à poesia.

Latuf foi um grande aglutinador de pessoas diversas, como o também poeta e jornalista A. G. Marinho, cronista policial do jornal O Saquá, que foi a última visita que Latuf fez, como se despedindo do mundo, no domingo anterior a sua transferência para um hospital de Belo Horizonte, levado por sua família. No sábado, Latuf esteve com o pintor Nelsinho na casa do Hélio, advogado paulista, que tem um sítio nas margens da lagoa, na Barreira. Também uma despedida? Amigo do antológico poeta, dramaturgo e crítico de arte Walmir Ayalla, que dá nome hoje à Casa de Cultura de Saquarema, Latuf se dedicava nos últimos anos a dar aulas, no Campus da UFF em Rio das Ostras e esporadicamente como professor convidado na Argentina.

Vice-coordenador do programa de pós-graduação em Ciência da Arte da UFF, professor de Fundamentos da Literatura, Ética e Estética na graduação e de Semiologia e Semiótica da Imagem, na pós-graduação da UFF, foi também coordenador de Produção Cultural. Com mestrado em Teoria Literária e doutorado em Poética, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas, na Universidade de São Paulo USP), Latuf foi uma dessas pessoas com inúmeros títulos, muitas definições, mas que preferia se apresentar com apenas uma: poeta!

“Sou mineiro, barroco”, dizia sentado nas almofadas árabes de seda, num sofá em sua casa. Filho de um comerciante libanês e uma típica cabocla da Zona da Mata, nasceu na cidade de Jequeri, em Minas Gerais. Aos 10 anos, foi para um seminário de padres em Mariana, onde obteve uma formação erudita, incluindo o estudo de latim, grego e hebraico. De lá foi para Roma, estudar teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, marco zero de sua caminhada por vários continentes, culminando com seu retorno ao Brasil e sua opção por Saquarema.

Definindo-se como “um católico zen”, Latuf foi uma grande surpresa para mim, que também optei por vir morar em Saquarema. Em minha casa nos encontramos várias vezes, para saborear um café, folheando livros e curtindo o visual e o barulho das ondas do mar. Outras vezes foram tardes intermináveis em sua casa, saboreando um vinho ou um licor. Latuf gostava de rituais. E um dos rituais que ele mais amava era o da amizade, com todos os salamaleques que isso implica. Assim, me trazia uma pulseirinha típica dos índios do norte da Argentina, quando chegava. E eu lhe mostrava livros de poesia underground. Trocávamos informação. Com a alegria imensa de viver a vida, a cada dia.

“Através da poesia me harmonizo com o universo”, costumava dizer Latuf. E assim foi.

A jornalista Dulce Tupy, o filho de Latuf, Otávio, o padre Zito, a professora Lina Barcellos e o poeta Antonio Francisco Alves, na missa em homenagem ao poeta e mestre Latuf Isaias Mucci

A jornalista Dulce Tupy, o filho de Latuf, Otávio, o padre Zito, a professora Lina Barcellos e o poeta Antonio Francisco Alves, na missa em homenagem ao poeta e mestre Latuf Isaias Mucci

Que o destino se cumpra

Sempre que conversava sobre o porvir com o meu irmão em poesia Latuf Isaias Mucci, ele deixava transparecer que já havia escrito o seu testamento sobre onde seria a sua morada eterna. Dizia ele: – lê meu livro Águas de Saquarema, está tudo lá.

Quando me chegou a triste notícia do seu passamento, peguei o seu livro, li novamente cada um dos seus versos, querendo com este gesto homenagear o dileto amigo. Passeando pelas páginas, pude confirmar o que ele havia afirmado. Há versos onde o Autor deixa disposições de última vontade: “Nem nada nem ninguém jamais em tempo algum/ Me fará morrer fora de Saquarema/ A terra nunca morre em Saquarema”.

Estes versos são, em verdade, uma profissão de fé, um manifesto de amor a Saquarema. E mais: no poema Testamento, disse Latuf: “Ninguém fica pra semente./ Portanto/ me enterrem na terra/ deste jardim./ Assim servirei/ de adubo/ a quem em vida/ me tem dado tudo de si:/ alegria/ e consolo./ Estas flores/ humílimas/ e lindas.” Este poema também foi escrito em Saquarema, na casa onde residia.

Mas, deixou também um sinal, no poema Fatum: “Já não choro mais./ Já não grito mais./ Já não mais me desespero/ Olhando meu jasmim recém-nascido,/ Espero que o destino se cumpra”.
O nosso amigo-irmão em poesia Latuf Isaias Mucci faleceu no dia 09 de setembro de 2010, em Belo Horizonte, nas Minas Gerais, sendo sepultado no Cemitério Parque Jardim da Colina daquela Cidade.  Aguardemos, pois, que um dia o destino se cumpra, pelo menos quanto ao desejo de ter sua morara eterna em Saquarema.

Antônio Francisco Alves Neto
Advogado e poeta

Capa O Saquá 125

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Matéria publicada na edição extra de setembro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 125)

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.