Pum no velório e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Pum no velório

No velório, Vanderleia, 22 anos, Ipitangas, disse que já tinha dado entrada no pedido de divórcio por não mais suportar o ronco e os puns do marido Sebastião, que durante os quatro meses que durou o casamento infernizou as noites do casal. Devido ao fedor, na primeira gravidez Leinha abortou e de tanto vomitar vivia menstruada. Era o marido pegar no sono e lá vinha pum podre, tosse, ronqueira, vomitado, absorvente encharcado e fronha babada com gosma de pigarro. Até durante o sexo detonava o vendaval gasoso que apodrecia o quarto e infeccionava a casa. As noites eram de terror total. Cada pum era um parto e de tanto se ventar acordava com a bunda vermelha, inchada e dolorida.

A mulher, de tanto inalar os gases ficou amarela e lazarenta com disenteria e logo no primeiro mês perdeu oito quilos. Seca esturricada passou a dormir no chão da sala e desnutrida ficou tuberculosa, psicótica, maníaca e depressiva. Uma semana antes do óbito, com as tripas entupidas, a barriga de Tião começou a crescer e de tão espichada começou a brilhar.

Sem forças para roncar as noites se tornaram silenciosas e respiráveis. Velado sobre a mesa da sala o corpo cinzento do morto, inchado e cheio de gases parecia um Zepelim da II Guerra Mundial. Leinha servia o café da madrugada quando num último e sonoro adeus o defunto liberou um estrondoso e derradeiro peido de despedida de sua vida neste planeta apodrecido cuja atmosfera ajudou a poluir. Até o galo, que trepado na cerca se preparava para cantar anunciando a alvorada, sumiu. Faltou foi gente pra carregar o caixão até o cemitério da Vila. Parentes de Sebastião disseram que vão procurar a polícia porque têm certeza de que ele foi envenenado pela mulher com uma mistura de chás de folhas de arrolha ruela com raspa torrada de cipó entope brioco.

A jibóia de Seu João

Sabrinni, 19 anos, que por timidez vivia entocada e reclusa na fazenda da Cachoeira do Cascatão, numa casinha na beira do riacho, no alto da Serra de Mato Grosso, em Sampaio, ficou tresloucada e desvairada quando deu de cara com o empregado João Mateiro, de 72, pelado, com água pelos joelhos, tomando banho na correnteza rego. De beiço caído deu um chilique, estrebuchou, subiu um calor pelas pernas acima, uma zueira nos ouvidos, deu três gritos e um berro e se arregaçou desacordada, toda arreganhada em cima de um pau do portão do poleiro. Durante a queda espetou a bunda numa farpa de bambu e sangrou. Dona Vitorina, a mãe, ouviu os gritos, correu e deparou com a cena. Como não tinha dentes e estava fumando cachimbo, berrou desbanguelada: “Esputro! Acuda gente! Niní foi esputrada desmalhada no galinheiro”.

Quando Sabrinni acordou, Mateiro, ainda com o rabo de fora, já tinha sido esquartejado na porrada e todo lanhado de vara berrava por inocência por ser brocha há mais de trinta anos. Para os policiais Niní disse que gritou assustada e desesperada porque viu uma cobra, talvez jibóia ou bicho semelhante, que saia de dentro da água, na altura dos joelhos e parecia que estava mordendo em baixo do umbigo de Seu João que, internado cheio de fraturas e escoriações ainda não foi depor pra explicar que monstro de bicho e esse.

Depilando a perseguida

A briga começou quando a cachorra de Catula, conhecida como pentelhuda, chegou em casa ganindo e arrastando os quartos depois de ter tomado uma coça de pau, atribuída a “Lucelha”, vizinha que odiava o animal por questões íntimas. Morando no mesmo quintal, o resultado do evento foi que as duas se engataram na porrada na porta do mercadinho, perto do Beco das Mocréias, nos Cajueiros, em Jacarepiá, até terminarem se esbagaçando no cacete no terreiro da invasão onde moram, local conhecido como Condomínio Bicho de Pé. Durante o rapapomba, Catula gritou que Lu espancou a bichinha porque pegou o marido na cama, na maior sacanagem, fazendo sexo com a cachorra, que estava no cio. Silvério, o acusado, afirmou que o flagrante foi verdadeiro, mas estava apenas catando carrapatos e raspando com um presto barba a periquita de pentelhuda, que ainda chegou em casa com a bunda cheia de espuma.

Após a confusão, Catula resolveu procurar a polícia e registrar um boletim contra o casal, ele por assédio sexo-animal, ela por dupla agressão e co-autoria de depilação criminosa. Durante o depoimento chamou o acusado de “xoxoteiro de cachorra e de tarado do presto barba”. Em sua defesa, Lu afirmou que a vizinha ta é seca por um macho e fissurada pra ver Silvério navalhando a raspadinha, e concluiu: “Quem vive no cio é a safada da Catula, velha escrota e tão desbabacada que, entre ela e a cachorra, o meu marido preferiu raspar e papar a pentelhuda”.

Sururu no galinheiro

O galinheiro de Marineida, na Restinga, era uma festa ecumênica de sacanagem galinácea. Para incrementar o fodúncio ela optou por transformar o local numa grande área de lazer, onde perus galavam frangas, cafungavam marrecas, futucavam d’angolas, tudo no maior alarido no poleiro. Os galos não respeitavam nem as patas chocas. Sentavam a mamona nas penosas, enquanto gansos pedófilos estupravam pintos e franguinhas indefesas.

A gang dos pavões só queria saber de devorar as galinhas e o resultado de tudo isso era maior suruba na chocadeira. Para legalizar o “motel das penosas”, chamou um arquiteto e encomendou uma planta audaciosa. Não podia faltar lago, poedeiras, poleiro para namoros e encontros íntimos, área para ninhos, telheiro para galinhagens e areia macia pra dar uma boa ciscada. Tudo quase acertado deram início às obras. Aí foi aquele vuco-vuco de galinha com peru arregaçado na masseira, franga trepando nas pilhas de tijolos, gansos bicando as bundas dos serventes, galo querendo comer os pedreiros, até que, certa tarde, o sonho das fogosas galináceas foram desfeitos. Desautorizada a construção parou por falta de medidas adequadas, excesso de galinhagem por metro quadrado, esgotos apropriados para cocô pós ovo, espaço coberto para o pinto e o peru não ficarem de fora. Segundo buchichos Marineide virou um ouriço e soltou língua e espinho pra todo lado. O caso do galinheiro está dando, ou via dar, polícia e pelo que se comenta foi parar na justiça.

Perereca no atoleiro

Quando o único poço que supria as necessidades da família de Nemézio secou, as cinco filhas passaram a se banhar na Lagoa Vermelha, que fica nos fundos da casa, na Massambaba. A hora da lavação virava festa. Era aquele pombarel ensaboado no espumeiro. Tinha um tal de cata-cata sabonete de quatro atrás da moita, perereca encharcada no atoleiro, esfregão no topete da periquita, lava rabo no remanso da lagoa e nheco-nheco no cipó da pitangueira. Sabendo que a rapaziada disputava os galhos das árvores para ver a sacanagem, cada uma se exibia mais do que a outra pra incrementar o show que ficou conhecido como “hora da bronha”.

Se por alguma razão a água da lagoa ficava mais vermelha, o povo logo comentava: “as filhas de Nemézio tão de chico”. Já que a coisa ficou pública, a família resolveu faturar alugando vaga nos galhos das três jaqueiras: “cinco mirreis pra trepar”. Tanto subiu o faturamento que um dos galhos quebrou e esborrachou na cabeça de Gilda, 24 anos, conhecida como Ziloca, que morreu ensaboada e espumada embaixo de um tronco de pau grosso, cheio de macho trepado em cima.

Capa O Saquá 124

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Artigo publicado na edição de setembro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 124)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.