Clima do “já ganhou” porque as pesquisas “já decidiram”

Opinião - Silênio Vignoli

Um dos aspectos mais instigantes, que envolviam os prognósticos da eleição presidencial deste ano, era descobrir o patamar em torno do qual um presidente popular como Lula conseguiria transferir votos para sua candidata Dilma Rousseff. A identificação deste patamar foi se tornando cada vez mais complexa, em razão da campanha caracterizar-se pela inédita distorção decorrente da persistente presença do presidente, recorrendo à força da máquina governamental para construir vitrines em benefício de sua candidata. Essa estratégia criou um desequilíbrio na disputa, afetando o ritual da escolha que o eleitor desenvolve pela análise serena dos programas de governo de cada candidato.

A infantilização da maioria do eleitorado brasileiro, denunciado pela candidata do Partido Verde, Marina Silva, é um dos sustentáculos da alta popularidade do presidente Lula, o que está levando a campanha eleitoral a deflagrar um perigoso processo de esterilização da política, conforme alertam renomados cientistas políticos. Publicitários que analisaram a primeira fase da propaganda eleitoral no rádio e na TV falam dos momentos em que o telespectador sente o sabor artificial da política. É como se os candidatos fossem muito mais vendedores de produtos do que de idéias. A sensação generalizada é de que não há como resistir à combinação da alta popularidade presidencial com sua avassaladora manipulação do poder político, que resulta num rolo compressor acionado por uma máquina muito bem azeitada.

As duas últimas pesquisas, divulgadas no final de agosto, apontaram folgadas vantagens de Dilma Rousseff sobre José Serra, entre 20 (Datafolha) e 24 (Ibope) pontos percentuais. A candidata do presidente Lula ultrapassou o candidato tucano inclusive em São Paulo, estado por ele governado até março. Constata-se, pelas pesquisas, que uma projeção dos votos válidos revela nítida tendência da candidata governista eleger-se já no primeiro turno, o que tornará falsa a tese de cientistas políticos e marqueteiros, segundo a qual voto de mito popular com 80% de aprovação não se transfere. Certamente, foi em função dessa tese que o presidente de um famoso instituto de pesquisa chegou a prever, antes do início da campanha, a vitória de José Serra.

Com os resultados dessas duas pesquisas, pode-se até concluir que o processo de transferência de votos de Lula para Dilma já é quase total, caracterizando a ocorrência do chamado “efeito poste”, rechaçado pela candidata Dilma que, a todo momento, esbraveja “eu não sou poste, não”, mesmo reconhecendo que nunca disputou eleição para um cargo público. O fenômeno da transubstanciação de Dilma em Lula foi o grande desafio que o candidato oposicionista José Serra parece ter menosprezado. A capacidade de transferência de votos de Lula nunca foi devidamente avaliada pelos tucanos, principalmente por considerarem a fragilidade de uma candidata tirada do bolso do colete como Dilma Rousseff.

O clima é do “já ganhou”, transmitindo a inusitada impressão de que as pesquisas já decidiram tudo e a eleição no dia 3 de outubro vai ser apenas um ato litúrgico, onde os devotos da democracia exaltarão sua divindade. Muitos cronistas já fazem comentários do tipo: “Dada como perdida a eleição presidencial, a tentativa da oposição, agora, é impedir a desmobilização das campanhas regionais e resistir ao verdadeiro tsunami governista que vem tomando conta do país, do Oiapoque ao Chuí”, reproduzindo a imagem de abertura da propaganda no rádio e na TV da candidata oficial.

Capa O Saquá 124

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Artigo publicado na edição de setembro
de 2010 do jornal O Saquá (edição 124)

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.