Cueca engomada e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Cueca engomada

Deoclécio, 26 anos, Boqueirão, era tão apressado, em todos os sentidos, que ficou conhecido como Coelho. De herança recebeu um cacau e comprou carro novo, câmbio automático, só pra ficar com a mão livre pra fazer cafuné na perereca da carona. Mal começava e pronto, se lambuzava todo.

Marcela, de 23, muito da chegada num freio de mão, se derreteu toda e só pra desfilar no carango resolveu deixar ser papada pelo coelhinho. Por diversas vezes ele tentou, mas o mingau transbordava antes de o leite ferver. O comentário rolou na birosca e a fofoca devastou a Barra Nova e o Boqueirão. Quando Deoclécio chegou no forró do Rasga a Lasca, Romero, que de tão bebo tinha acabado de vomitar, chamou Coelho de “cueca cremosa” e perguntou se o perfume que ele estava usando era água sanitária. O tempo fechou e o redevu virou Iraque. Um tornado de tiros, palavrões e porradas esbagaçou o ambiente.

Quando a polícia chegou tinha até homem nu desmaiado arreganhado na cacimba e mulher pelada embarbelada na cerca de arame farpado. Romero, 22 anos, morreu desbanguelado com um tiro na boca. Coelho largou o carro novo, se embrenhou na macega e sumiu a pé pelo mato adentro.

Ronilda Banda Larga

Fissurada num telefone, Ronilda, 29 anos, faturava fazendo netsexo, telexo, sex-shopping e disk-sacanagem pelo orelhão da Rua do Retiro, que tocava noite e dia para o desespero dos moradores. Quando Gomercindo, o marido, após quinze dias voltava da plataforma, o orelhão ficava surdo e mudo. Conhecido como Gume, foi Flagrado torcendo pela Argentina e, entre outras ofensas, foi chamado de tele-corno, net boi e de oiiii-chifrudo. Desconfiado intimou Ronilda no cacete, deu quatro porradas nos beiços e exigiu confissão. Mesmo com a boca enxada a mulher despejou um rosário de sacanagens, descreveu detalhes de surubadas, relatou nomes dos machos pelos quais foi devorada, citou os jovens e os velhos que a possuíram, mas concluiu afirmando que a reforma da casa ela conseguiu de quatro na cama e que se o marido estava insatisfeito que se mudasse. Na mesma noite Gomercindo sapecou fogo no imóvel que torrado virou carvão de churrasco.

No dia seguinte se entregou a polícia, relatou o fato e foi preso. Romilda está procurando uma casa para alugar, não importando o preço, só exige que seja perto de um orelhão, tenha telefone convencional instalado, receba com clareza todas as operadoras de celular e seja suprida por internet banda quanto mais larga, aberta e arreganhada, melhor.

Baixaria em família

Dona Zelda, 52 anos, mãe de “Julha”, de 19, chegou esbagaçada e roxa no balcão do plantão da delegacia e disse ter sido estraçalhada na porrada pela filha, que além de safada e dadivosa tinha tanto fogo na partida que parecia motor de arranque de carreta. Relatou que a agressora além de seis amantes fixos, tinha uns tantos e muitos outros na fila, que a cada noite se alongava em sua porta. O preço da transa variava de acordo com a gritaria: funga-funga roncadinho, cafuné reco-reco, sussurro com rosnado e tremedeira, cafungada com espirro, casal de gato no telhado e escapamento turbinado, mas quando inventou uma tal de “britadeira na pedreira” a mãe resolveu acabar com o fodúncio, dando origem a briga que esmolambou a cara de Dona Zelda. Presa, Julha disse que era apenas um clone da mãe, que o que tinha de cafetina tinha de safada, razão do apelido de Madame Gonorréia, adquirido num concurso de piranhas realizado num redevu do Rio de Janeiro. Por desacato foram recolhidas ao mesmo xadrez, onde durante toda a noite o som das ofensas mútuas enchia os corredores da delegacia. Zelda foi chamada de “malha fina”, porque pegava macho de tarrafa. Julha de “mulher morcego” porque gostava de fazer sexo pendurada de cabeça pra baixo.

Com a boca na maminha

No sítio do Riacho Largo, no Rio Seco, tem uma criação de cabras que vive solta num pasto coberto por um tipo de grama conhecido como tesão de vaca. No rebanho tem um bode meio zarolho chamado de Maradona (só cheira e cafunga a perereca, mas não encaixa na boca da caçapa). Gemendo no cio, a cabritada berrava atrás de um bode e foi então que Genildo, 19 anos, dançarino funkeiro nas horas vagas e encarregado de cuidar da bicharada no horário de trabalho, passou a viver o dia inteiro no funk-funk engatado no barranco. Flagrado pela patroa, confessou na delegacia que chegava “futucar” sete cabritas por dia. Que era isento de culpa pelo ato, porque fazia sexo permitido e que jamais induziu os animais à sacanagem e sim foi seduzido pelas cabras que, de tanto fogo no traseiro, pastavam roncando, de marcha ré, com a bunda virada para o vento sudoeste. No seu depoimento, disse não ser verdadeira a acusação de ter sido flagrado fazendo sexo com uma cabrita conhecida como reboleta “estava apenas mamando as tetas cheias de leite, porque não tinha tomado café em casa”.

Mariola gargarejo

Ao se declarar injustiçado e perseguido pelos seus irmãos, que não aceitavam a sua condição de corno suave, tranquilo e manso, Cesário, 24 anos, casado de papel passado e casa comprada, disse, durante uma discussão em família, que não ia abandonar a sua esposa porque quando casou já sabia que ela era “ordinária e galinhenta”, mas mesmo assim era possuído por total tesão e incorporado por efervescente paixão pela sua mulher, conhecida no bairro como Mariola. Declarou que a esposa era irresistível quando andava remelechendo as ancas e chacoalhando o pilão, além de na cama ser exímia “socadeira”. No gargarejo, então, era imbatível, acrescentou. Durante o jogo no qual o Brasil foi derrotado, os ânimos se alteram na tendinha e disseram que maior do que a zueira das vuvuzelas eram os cornos de Cesário, que pareciam dois berrantes de tocar boiada no mato. Revoltado tomou meio litro de cachaça. Voltou pra casa meio macambúzio, chorou só um tinguinho, engoliu vinte seis comprimidos de um remédio tarja preta e embarcou no sono eterno dos traídos que partiram chifrados para o paraíso dos cornos desolados por um amor rameiro e safado.

Perereca à pururuca

Quando, durante uma briga, Jureide disse a Olegário que o filho de 12 anos para o qual ele sempre pagou pensão não era dele, o pedreiro virou o satanás e partiu de faca em punho para desossar a ex-companheira. A pensionista, língua apimentada, disse que na relação conjugal ele sempre foi “rosqueiro’, portanto, sabia não poder ser o pai e que o dinheiro era pago como um cala-boca, para que ela escondesse o fato de que o ex-amante tinha nojo de perereca. Durante o quebra-barraco, Olega, para os íntimos, gritou para os vizinhos do Beco do Inferno que Jura sempre foi conhecida “por gostar de atirar pela culatra”, razão pela qual ele era chamado de Olegário Marcha-ré. Na noite da discussão, enquanto a mulher dormia, Olega despejou um litro de álcool nas coxas e umbigo da ex-amante e fritou a perereca de Jura, que continua internada em estado grave, esturricada, cosida, assada e empolada no Hospital dos Queimados, no Rio de Janeiro.

Capa O Saquá 123

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Artigo publicado na edição de agosto
de 2010 do jornal O Saquá (edição 123)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.