Picadura fatal e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Picadura fatal

Caminhoneiro estradeiro, Roberto, 37 anos, adorava tomar banho pelado na praia de Vilatur. Arreganhado na areia, levou uma picadura de inseto na dobra da curva bunda. Três dias depois o local era só inchaço, dor, coceira e um buraco inflado meio fedido.

Remédio caseiro não deu certo. Então resolveu consultar o vizinho rezador, que tinha fama de boiola. O diagnóstico foi imediato: “bicheira de vaca”. Na receita o local teria que ser coberto durante oito horas, com um emplasto de pomada com unguento langanhoso de beladona, antes da retirada das larvas. Na delegacia, Eloneide, mulher do caminhoneiro, que mora e trabalha no Rio como guarda de segurança armada e que de nada sabia sobre o acontecido, disse que quando chegou à casa de Vilatur, encontrou Roberto na sua cama, nu, de bruços, gemendo com um homem de short e sem camisa, ajoelhado em cima, fazendo cara de tesão e amassando a bunda do seu marido.

Antes de tomar dois tiros no fêmur, Jujuba rezador complicou a coisa ao dizer que estava apenas “espremendo a picadura do vizinho”. Os outros quatro balaços atingiram os pulmões de Roberto, que morreu no local com a bunda cheia de bernes.

Angu de língua

Se queixando de ter tomado um banho de língua e de ter ficado toda babada, bem em cima da sepultura dos índios no Sambaqui da Beirada, Delizete, 22 anos, Manitiba, disse que só não foi estuprada porque o tarado esqueceu a “azulzinha” em casa.

Durante o depoimento afirmou conhecer o agressor com quem teria encontrado para comer um angu de barraca com sarapatel de vaca, antes da sessão sacanagem. Além de ter chegado bebo, Clodoaldo, 53 anos, deletou o rango, deu um montão de porrada na parceira, arrastou pra dentro do cemitério e durante quase duas horas lambeu Delizete dos pés a cabeça, deixando a vítima toda besuntada com baba de gosma, terra de defunto e formiga saúva.

Esganada no puleiro

Aberta e liberada usava um fio dental tão sumário que mal encobria uma das trinta e seis reentrâncias do fiofó. Largada do marido seis meses após um casamento festivo, Carla Coliine, 20 anos, era um escândalo de deliciosa e a chuleta mais desejada pelos churrasqueiros de praia. Seminua, só para provocar desfilava à milanesa pela orla, com o número do telefone tatuado na bunda. De um lado o convencional, do outro o celular, com DDD e tudo.

O apartamento para encontros, em Itaúna, tinha uma inscrição na porta, “mom perchoir” (meu puleiro), em francês, isto porque, segundo testemunhas e frequentadores, durante o ato libidinoso gostava de ser chamada de franga de granja, inquilina de galinheiro, de fazer sexo com a cama coberta de ração para galinha e de ser surrada com espigas de milho. Para completar tomava cerveja cacarejando.

Na opinião da polícia, um corpo desovado às margens da Rodovia Amaral Peixoto seria de Carla, que teria morrido esganada no Rio de Janeiro, tendo como principal suspeito o seu ex-marido, o italiano D’LaFrancesca, que está sendo acusado de ter assinado o bilhete que foi encontrado colado no peito da vítima com os seguintes dizeres: “façam uma boa canja”.

Desgramelando a vuvuzela

Fã incondicional de futebol, Creusa, 28 anos, foi logo aceitando o convite feito por Delmar, de 32, que mora na Chatuba, para assistir o jogo Brasil X Tanzânia, no telão de 52 polegadas, comprado para copa e para servir de isca para sacanagem. No quarto, almofadão de cetim verde e amarelo, imagem digital e fotos de safadezas em alta definição.

Assanhada, Creusa foi logo se refestelando no tapete e chamando Kaká de meu tesão. Para comemorar o primeiro gol, Delmar, ensandecido, se arreganhou e se rasgou todo. Dando pulos de alegria, enfiou a mão ninguém sabe onde, palmeou aquela enorme vuvuzela, enfiou na cara de Creusa e disse: “sopra com força, safada, que ela geme”. Como o instrumento não coube na boca da torcedora, ele mesmo tocou e comemorou o 1 x 0, prometendo que se saíssem mais gols ia implodir a visitante e entrar com bola e tudo pelos sete lados. Como o resultado foi 3X0, o jogo teve mais três tempos: um na delegacia, por invasão e destruição do gramadinho.

Outro no hospital, para sutura dos estragos causados na boca do túnel e o terceiro no IML: mesmo impedido, entrou duro por trás, furou o bloqueio, chutou pra dentro, deixando a rede adversária melada e arrombada.

Overdose de sexo

No clube das gorduchas, Mara, 39 anos, era chamada pelas colegas de chimbumbo e tinha o maior orgulho do apelido. Tinha doze quilos de banha dura em cada lado da bunda que, dentro da calça de malha apertada eram sensualmente sacudidos no forró da Malagueta no Tampax.

Germano, 63 anos, corno recentemente abandonado pela esposa e doidinho pra meter a colher de pau no gordurame de chimbumbo, cantou a rechonchuda, prometeu amor eterno e duas arrombadoras sessões diárias de sexo sem fronteiras. Na primeira semana cumpriu a promessa.

Na segunda entrou em coma e deu entrada na emergência do hospital onde morreu vítima de overdose por exagerada ingestão de estimulante sexual. No velório, Corina, ex-mulher do defunto, insinuou que a namorada teria usado a sua parte mais gordurosa do corpo para matar seu ex-marido e chamou Mara de bunda assassina, self-service de estuprador e de cafetina de coroas da terceira idade. A ofendida passou a mão no castiçal, com vela e tudo e arregaçou a cara da ofensora na porrada. O enterro e o sururu acabaram na delegacia.

Segurando o cipó

Todo mundo sabia da mania de Olegário, 23 anos, Massambaba, de criar cobras nos fundos do quintal da casa onde morava. Amava tanto os animais que vivia pra cima e pra baixo alisando a surucucu. Trocava beijo de língua com a jararaca preguiçosa. Dormia com duas jibóias, uma enrolada no peito e outra roncando entre as pernas. A cascavel, que chamava de “meu bilau”, se contorcia toda quando Olegário fazia cafuné no cabeção da venenosa.

A sucuri, que já tinha engolido vivo o bode de estimação da vizinha e uma cachorra pitbull prenha, era doida pra dar uma bocanhada e comer o dono, que não era gay, mas por gostar de cobra e andar pela rua com uma coral enrolada no braço tirando onda de balangandã de despacho recebeu o apelido de “bunda de gaveta”. Distraído com o jogo da copa, Olegário sentou em cima de uma jaracuçu vesgueta e levou tamanha ferrada na gaveta que amanheceu morto, inchado, todo malhado de preto e ainda segurando uma cobra cipó pelo rabo.

Capa O Saquá 122

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Artigo publicado na edição de julho
de 2010 do jornal O Saquá (edição 122)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.