As razões de Dalton e Paulo Melo

No discurso que ambos fizeram, no chamado Encontro da Paz, realizado na Arena Fest, Dalton Borges e Paulo Melo explicaram detalhadamente os motivos que os levaram a fazer este acordo político que uniu os dois grupos. Amigos de antigamente, depois adversários e agora parceiros, Dalton e Paulo esclareceram esta aliança que os une, depois de 14 anos de afastamento. Eis os principais trechos dos discursos de Dalton e Paulo Melo.

Dalton Borges

“Eu optei por Paulo Melo. Muita gente acha que ele foi nosso maior adversário político, mas não era, porque o meu grupo teve rejeição a Paulo devido ao governo Peres. Quando começamos a enxergar isso, nos aproximamos. Eu e Paulo fomos amigos no passado. E o palanque acirra, é igual a jogo de futebol: tem que entrar para ganhar! Paulo é um homem que combati muito tempo, mas que vem trabalhando por Saquarema.

Ele esteve em Sampaio Correia e todo mundo sabe do meu amor por Sampaio: nasci lá! Sampaio tinha uma vida fervorosa e acabou, porque acabou o emprego quando a usina faliu. Lá eu comecei o Condomínio Industrial, com 3 alqueires. Durante 8 anos o ex-prefeito nem sequer passou uma enxada lá. E Paulo, com todas as nossas divergências, pensou em Sampaio. Hoje ta lá o Condomínio Industrial, que vai gerar 3.000 empregos, com quase 1 milhão de metros quadrados e mais de 50 empresas. Eu observei tudo isso e senti que, se eu não tomasse uma decisão rápida, se eu apoiasse um deputado estadual de fora, eu acirraria a disputa política com o Paulo e, daqui a 2 anos, não teria outra solução a não ser me unir ao ex-prefeito.

Então, eu tinha que tomar uma decisão rápida e tomei! No começo foi um impacto! Mas as pessoas já estão avaliando que foi o melhor para Saquarema, o melhor para o Paulo e para a gente também. Foi bom para todo mundo! Aqueles que me criticam vão ver, no futuro, que eu estava certo. Tenho observado o jeito como esse homem trabalha, corre atrás. Quero agradecer aos amigos que nem contestaram, simplesmente me ligaram, foram à minha casa e me deram um abraço e disseram que estão comigo onde eu estiver. Isso mostra a força do nosso grupo. O ex-prefeito não podia fazer o que ele fez com Paulo, que foi quem o elegeu por 2 vezes!

Se não tivesse Paulo, eu ganharia dele de chinelo! Ele não soube respeitar a lealdade, que é uma características do Paulo. Eu conheço o Paulo há muitos anos. E a lealdade a gente só vê na hora das dificuldades, nas grandes decisões. É quando a gente vê quem são os companheiros, quem são os interesseiros e aqueles que só estão com você no poder. Então, estou de peito aberto e feliz. Muitas vezes é bom dar 1 passo atrás para poder dar 2 para frente. Ficar o tempo inteiro malhando em ferro frio não resolve.

A decisão tinha que ser tomada e eu tomei! Conversei com o deputado Jorge Picciani e depois com Paulo. Conversamos durante 4 horas e ele falou: ‘interessante conversamos durante 4 horas e não brigamos’… Porque quando conversamos estávamos de coração aberto. Tenho absoluta certeza que estou no caminho certo e as coisas vão melhorar, vamos construir um grande grupo político, para fazer crescer essa cidade, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. É isso que nós queremos. Eu sei que tem muitas dificuldades; não é fácil administrar um município. Mas em breve muita coisa vai melhorar. Isso o Paulo tem feito: tem procurado fazer as coisas acontecerem. Quero agradecer à minha esposa Rosângela, que me acompanha nas minhas decisões, aos meus irmãos que me abraçaram na mesma hora, à minha família, aos meus companheiros de grupo, que assumiram comigo essa jornada e às pessoas que me deram o carinho, o afago e o abraço. Quero agradecer às pessoas que durante anos me acompanharam e continuam me acompanhando. Temos que aprender a perdoar; ver que existem coisas mais importantes que o rancor, a raiva, o ressentimento. Temos que ser um grupo só. Atualmente, quase não vejo o Cabral, mas fomos amigos no passado e somos até hoje!

Na verdade, somos um grupo só, que se dividiu em 97; cada um foi para um lado e hoje retornamos quase todos paro o mesmo grupo. O tempo muda, a gente vai ficando mais velho. Eu tomava banho de rio com Paulinho quando era garoto… Tudo isso flui devagar. A gente vai voltando a amizade. Até já jantamos, eu e Paulo, Franciane e Rosângela… A gente vai se soltando, as amizades voltando e as coisas se colocando no lugar. Nosso grupo vai se transformar no grupo do bem; o grupo que quer o bem dessa cidade. Vi várias vezes o Paulo encher os olhos d´ água, quando falava do nosso passado. Quando os olhos marejam é porque o coração está falando mais alto que a razão. Isso me deu tranquilidade para apertar a mão do Paulo e do Picciani. Tenho certeza que sentimento nós sempre tivemos, mas a história nos separou. E agora ele volta mais forte, para que juntos possamos melhorar a vida dessa cidade”.

Paulo Melo

“Até os maiores países, as mais fortes civilizações foram construídas na guerra! Mas de que adianta a guerra se não for um instrumento para construir a paz? É exatamente isso que a política propõe e nos impõe um lado. Cumprimento a todos, na figura de Sr. Jurandir da Silva Melo que é a síntese da busca da paz. Ele hoje é um conselheiro, um verdadeiro amigo, mas já foi um grande guerreiro; o homem que comandou esta cidade por vários anos e soube, no momento exato, que por mais feridas que a cisão deixa é preciso cicatrizar e buscar um entendimento em nome da construção do município.

Hoje vejo o Rodrigo, pessoa que encarnava os sofrimentos e angústias de seu tio Dalton e partia para briga! Eu e Dalton tivemos uma relação de amizade muito grande, mas por uma infantilidade, de ambas as partes, não procuramos o diálogo e cada um caminhou por onde achava melhor. Nos distintos caminhos, nos perdemos na bifurcação da intolerância e nos encontramos no entrocamento da amizade.

Tivemos um confronto de ideologia. E se você, Dalton, foi ferido, também ferido fui. As afrontas foram no calor da disputa. Mas lembro que um dia, sentado diante de um juiz de Saquarema, eu ganhei de você uma ação que me dava uma indenização – que para você faria uma grande falta e prejudicaria a sua família. Depois do juiz falar a sentença, eu disse que não queria. Outra ocasião, no restaurante Frutíssima, você passou com sua mulher sem olhar, mas seu filho Matheus, que não foi contaminado pela nossa briga, voltou, me abraçou, me deu um beijo e me chamou de tio! Foi talvez o maior presente que recebi, porque entendi que nesse guerrear, nesse confronto, mesmo sem disputar com você diretamente, a gente brigava a guerra que não era nossa. Você disse que meus olhos marejaram. Eu chorei, é verdade. O verdadeiro homem é aquele que não tem vergonha de esconder seus sentimentos.

A amizade renasce, porque na realidade nunca morreu. Ela estava lá no jardim da vida, só não era adubada, mas a raiz era firme e forte. Na mais singela gota do orvalho, foi regada e com força nasceu novamente. A gente não chora diante do inimigo; a gente chora diante do amigo, sem saber porquê se tornou inimigo. Num processo maquiavélico de traição você poderia ser a faca, a adaga para me apunhalar. E o que você fez? Você procurou o presidente da Assembleia Legislativa para dizer a ele: você tem que falar com Paulo que estão armando uma grande covardia para ele… Ora, se eu fosse seu inimigo de verdade, um inimigo incrustado no seu peito, na sua mente, você iria se preocupar comigo? Naquele momento, quem falava com o Picciani não era o candidato, era o cidadão. Você entendeu que não poderia ser partícipe daquela trama, na qual você foi procurado para fazer uma jogada e me isolar politicamente.

Nada machuca mais o ser humano do que a ingratidão. Ingratidão é um sentimento mesquinho, impuro, vil. Não me restou outra alternativa a não ser aproveitar a oportunidade que Deus me deu de poder olhar nos seus olhos e perguntar por que cada um de nós pegou estradas tão diferentes se o nosso destino é o mesmo? Naquele momento, eu tive absoluta certeza de que recuperava uma amizade que me fazia falta, um amigo que torceu por mim no começo da minha vida, mas não ficou do meu lado.

Em breve, vamos ter aqui na Barreira a maior Escola Técnica do Rio de Janeiro. Vamos ter o hospital e as indústrias que estão se instalando em Sampaio Corrêa. Nós compramos 1 milhão de metros quadrados e estamos adquirindo mais 1 milhão do outro lado da estrada. Nossa aliança é para melhorar a qualidade de vida das pessoas. O que me interessa é esta cidade, é para aqui que eu volto quando entro no meu carro e sempre retorno para Saquarema! Se eu cair numa calçada no Rio de Janeiro, sou mais um jogado no chão. Aqui, se eu tiver um acidente ou passar mal, até o mais ferrenho adversário vai parar e me atender. Isso que não tem preço!

Não me importa se essa união me rende frutos políticos. O importante é que não existe nada mais significativo no mundo que um amigo. Me dava uma profunda dor ver a Rosângela passar na rua e ter que mudar de calçada… A oportunidade que você está me dando, Dalton, de apertar a sua mão e dizer novamente amigo é o mais importante! Vamos juntos construir um futuro melhor para a nossa cidade. Hoje, apesar de ter guerreado tanto, ter conquistado tantos territórios, minha maior vitória é esse retorno para casa junto com vocês”.

Leia também: A união de Paulo Melo e Dalton.

Capa O Saquá 122

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Matéria publicada na edição de julho
de 2010 do jornal O Saquá (edição 122)

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