Esquartejada no rasga greta e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

Esquartejada no rasga greta

No quintal da casa de Zé Macário, 48 anos, na Restinga, apareceu uma perna de defunto que ele afirmou ser de mulher porque estava de meia fina e unha pintada com esmalte vagabundo, vermelho redevu. Erivaldo, vizinho, disse que conhecia bem aquela marca de dentada cicatrizada na coxa da defunta, porque teria sido resultado de uma abocanhada dada pelo seu irmão, ex-amante da vítima, que morreu banguelo, com a cabeça decepada e os dentes arrancados com alicate de pressão. Disse mas não provou.
Uma senhora, que afirmou na polícia ser tia da perna, acrescentou ao depoimento que a “sobrinha” estava de chamego com um tal de Lobo Mau, que não abandonava o facão mesmo na hora de arregaçar com a amante pelado na macega. O suposto irmão da coxa, embasbacado e torto de cachaça, declarou que só o “NDA e as depressões vegetais” poderiam confirmar seu parentesco com o pedaço desconjuntado. O possível pai, que não reconheceu a parte decepada, disse que filha vivia despudorada na esbórnia, mergulhada na sacanagem e na orgia da madrugada num antro de perdição conhecido como “Rasga Greta”.

A perna, apesar de ter sido levada pela perícia e mantida indigente congelada no freezer do IML, continua provocando a maior confusão na Restinga, onde Lobo Mau foi esfrangalhado na porrada pelos moradores.

Periquita colada

Gemendo torto, Geraldo, 29 anos, destroncado e torcido, voltou cedo do trabalho berrando de dor na coluna. Chegando em casa, na divisa de Jaconé com Ponta Negra, abriu a porta e flagrou Valnezia, 25 anos, atolada na sacanagem e suspirando entulhada na gemedeira de Godofredo, conhecido como Barbão, por ser o homem mais pentelhudo de Maricá. Cínico, vestiu a bermuda, jogou beijinho e saiu assobiando e valsando pelas estradas de Jaconé. Mais corno do que destroncado, Geraldo desmaiou a mulher na porrada. Pegou um tubo grande daquele super conhecido adesivo e, para toda eternidade, colou os lábios da periquita de Valnézia.

Três cirurgias plásticas ainda não devolveram sequer o feitio original da perseguida da coitada que, esperançosa se inscreveu na fila de transplantes, no Japão, onde a incompatibilidade de tamanho é escancaradamente conhecida.

Crime ao molho pardo

Aldemiro, de 29 anos, considerado um homem muito bonito, vitimado por uma bolada nos testículos ficou broxa crônico e senhor de um bilau em coma vegetativa sem esperança de sair do sono eterno.

Conhecido como “geléia”, recebeu proposta de casamento. Relatou para Celeste, a pretendente, a triste história do seu penduricalho langanhoso, mas mesmo assim ela insistiu no casório com véu, grinalda, dama, buffet e festa. Segundo relatou a polícia só três meses após o casamento ficou sabendo que mesmo antes já era corno juramentado, quando durante uma briga a mulher lhe confessou não estar gorda, mas prenha. Que a festa de casamento, os móveis, o vestido e até a roupa do noivo foram presentes dos amantes e que o seu apelido de “polaca” não era por ser loira, mas por ser tão galinha que não achava estar grávida, mas choca.

Que sempre ciscou na piranhagem da estrada e numa casa de massagens na zona dos poleiros do Rio e nem sequer se lembrava dos poucos anos de virgindade por ter começado a desovar aos dez anos. No fim da confissão recebeu dezenove facadas e foi encontrada morta numa enorme poça de sangue. Preso, Geléia confessou o crime e afirmou não estar arrependido e comentou durante o depoimento: “era tão galinha que morreu no molho pardo”.

Dentada no fiofó

Jorjão, 47 anos, não podia ver um rango que enfiava os cornos na panela. Se fosse 0800, ai mesmo que ele embuchava , socava pra dentro e entupia as tripas. No forró do boi roubado, logo de manhã, comeu os quatro mocotós do bicho. Meio dia devorou a rabada. Passou a tarde escancarando no churrasco de costela escorrendo banha e à noite, refestelado, se fartou no angu tampado de sarapatel feito com as vísceras do chifrudo. No dia seguinte, não deu outra, se desse um passo se borrava todo. Na rua deu uma dor.

Primeiro ficou amarelo, depois começou a ficar roxo. Se breiou todo antes de sentar na privada da birosca, que mais suja era impossível. Deu entrada no hospital com a bunda escorrendo sangue depois de ter tomado uma dentada no rego aplicada por uma ratazana de esgoto que subiu pelo cano do vaso e degustou uma lasca do fiofó borrado do comilão. Depois de medicado foi preso pelo furto do boi e após três dias no xadrez da delegacia ainda não havia vaso sanitário nem penico que desse conta da diarréia do cagão.

Capa O Saquá 121

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Casos publicados na edição de junho
de 2010 do jornal O Saquá (edição 121)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.