O Lobisomen de Rio Mole e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

O Lobisomen de Rio Mole

Ilhada e alagada, o temporal transformou a casa de Catarina, 42 anos, São Geraldo, num pantanal. Delmírio, de 46, Rio Mole, solteirão conhecido por ter hábitos estranhos, socorreu a flagelada, hospedou a desamparada sob o cobertor quente do seu quarto e, solitário, foi dormir na sala. Na primeira noite, nada fez, nem pediu. Na segunda, peludo calorento, dormiu descoberto, nu, arreganhado no sofá. Na terceira, colocou uma foice sobre a cama, agarrou Catarina pelas tranças, enfiou a língua garganta abaixo, fuçou nos buracos dos ouvidos, acariciou o corpo da vítima com uma vassoura de pelos macios, fez sucção nos mamilos com um desentupidor de pia e surrou o corpo com um espanador de pó. Antes do sol nascer urrou e se babou todo, dilacerou Catarina com dentadas, arrancou e mastigou o pescoço e a cabeça de uma galinha choca e saiu cuspindo o sangue pela casa. A vítima recebeu atendimento médico e ficou internada. A polícia ouviu o relato da história e está procurando Delmírio, também conhecido como ET, que sumiu sem deixar rastros ou pistas do seu atual paradeiro.

Perereca congelada

O bom mesmo do rala cocha do Guarany era depois das duas da manhã, logo após o show de strip de Carmela Mela Cueca, 22 anos, residente em Niterói, que cobrava cinco reais para dançar com o cliente, pelada e toda emplastada de leite condensado, com direito a lambidas e linguadas de boca arreganhada. Quando não tinha interessado, entrava em cena o Sultão, cão da raça labrador, babão e fungador que adorava e abocanhava qualquer coisa doce. Era uma sacanagem canina arrepiada e apimentada entre palmas e latidos. A galera, de circo armado, berrava alucinada, fungava e saia na mão, enquanto a vizinhança endoidecida e alucinada com a balbúrdia congestionava as linhas telefônicas da polícia. Quando Carmela foi presa, Sultão ficou irado e, enciumado, com a boca escorrendo espuma, arregaçou a bunda do policial com tamanha mordida que voou sangue e baba com leite talhado pra tudo quanto foi lado. Na confusão, Sultão tomou um jato de spray de pimenta no olho e saiu ganindo pelo mato adentro. Carmela levou uma sprayzada na perseguida e ficou tão ardida que chegou à delegacia com uma bolsa de gelo seco pendurada entre as pernas.

Periquita da reserva

Ecologicamente desengonçada, Cesarina, 22 anos, por gostar muito de passarinhos, todo final de semana soltava a periquita na Reserva de Vilatur. Edson, de 24, crocodilo de plantão na Lagoa de Jacarepiá, se camuflou na macega, imaginou um suchi erótico e, inhaco. Comeu a periquita de Cesarina, numa cena rasgada de falta de pudor que parecia mais um balacubaco na micareta. E pior, não deixou o endereço, quanto mais o telefone. Embasbacada, Cesarina procurou seus três irmãos e anunciou ter sido estuprada a mão armada com requintes de violência. Localizado, Cesar foi massacrado na porrada e ficou cego de um olho.

Na polícia ele proclamou ser inocente da acusação e disse ter praticado um ato graciosamente permitido, mas que no final recebeu uma conta de R$120,00 que se negou a pagar porque “periquita solta no mato não tem preço e nem tem dono”.

O Paparazzi da Mombaça

Jussara, 26 anos, neta de índia, herdou da avó da tribo Caiapó a mania de andar pelada no sítio da Mombaça. A mãe, meio silvícola, além de nua no pasto tomava banho tcheco na cacimba do alagado. O marido, cansado de protestar, desistiu e passou a bronzear a bunda no roçado do terreiro. Até o empregado caía na capina com o rego a mostra e o bilau de fora. Irado e esbravejando, Seu Adolf procurou a polícia gritando que ia matar o safado que botou a bunda e outras intimidades da sua família na Internet. Fotos e filmes mostravam Adolf se limpando na macega com uma folha de taioba e Jussara despencando da pinguela que atravessa o rio que corta o sítio. A mãe, toda arreganhada, socando mandioca no pilão de acento e o empregado lavando o bilau no tacho de depenar galinha.

O site sumiu da internet na tarde do dia de São Jorge. A polícia está querendo saber quem é o espião que violou a privacidade dos descendentes da tribo.

Cachorrada do demônio

Na casa em Sampaio Corrêa, espaço único com cama, fogão, panela, vaso sanitário, penico, pulga e carrapato, tudo misturado, mora o casal Claudeli, de 57 anos, e Adélia, de 19, acompanhados por uma “falange” de treze cachorros. Os animais, cujos nomes são palavrões de baixo calão, são bem conhecidos na vizinhança pela ferocidade e por atacar as pessoas na rua. Perseguido pelos animais, Flávio, que mora no Rio e que turistava em Sampaio durante a Semana Santa, estava sendo mordido quando o dono começou a chamar a cachorrada pelos nomes (palavrões), tentando acalmar os bichos enfurecidos. Mordido e julgando ainda estar sendo xingado, Flávio sacou de um revolver e fez seis disparos matando três cachorros: pqp, vai tomar no… e pô… . De sobra, Claudeli recebeu um balaço na virilha que, ao atravessar para o lado traseiro, deixou um buraco ao lado do permanente já existente. O segundo tiro mergulho no ombro esquerdo e desbanguelou o braço que teve que ser operado e vai ficar banzeta e desmunhecado. No corredor do hospital Adélia afirmou que cachorrada tem parte com o demônio porque, recentemente, caral… (bilau) com uma mordida arrancou um pedaço da sua bundona que, inflamada, está sendo tratada com emplastro de folha de despinguelada da grota, planta cujos poderes antiinflamatórios são fartamente conhecidos e usados no tratamento de doenças sexualmente transmitidas, segunda receita das macumbeiras da Serra de Mato Grosso.

Maçarico gay

Venâncio, 32 anos, amasiado, furador de poço e residente na fronteira com Araruama morava aqui, mas futucava o buraco d´água do lado de lá. O soldador Guaracy, de 26, casado, mas chegado a um babado gay propôs união estável que, quase aceita, esbarrou no problema da divisa: viver lá ou cá. O processo de indecisão se arrastou até que a mulher de Vevê descobriu não só a antiga relação amorosa, mas também o projeto de união escancarada dos dois corpos peludos e musculosos num vuco-vuco de barba com bigode e virilhas suadas no meio daquela sovacada cabeluda. O escarcéu e a porradaria começou na Mataruna, atravessou a fronteira e escandalizou o Jardim Ipitangas. Durante horas ofendido pela mulher no galpão da oficina onde trabalha, Guará passou a mão no maçarico de soldar e derreteu a cara da esposa. A chapinha dos cabelos virou uma paçoca grudada na careca. Os óculos de sol comprado no camelô derreteu e grudou no olho. Os cabelos das sobrancelhas assaram junto com o buraco do nariz. Os beiços soldaram e o médico teve que fazer um buraco para passagem do canudo de tomar sopa de papinha. Intimados, Venâncio e a mulher não compareceram para depor. Guaracy picou a mula e ninguém sabe onde está.

Capa O Saquá 120

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Casos publicados na edição de maio
de 2010 do jornal O Saquá (edição 120)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.