Confesso que sobrevivi à criação de Brasília

Editorial - Dulce Tupy

Eu tinha 12 anos e estava trepada numa goiabeira no barranco, quando vi passar pela estrada Rio-Petrópolis a caravana que saía da capital da República, Rio de Janeiro, para inaugurar Brasília, a nova capital federal. Eram fileiras e mais fileiras de carros e caminhões fabricados na antiga FNM, a Fábrica Nacional de Motores, que depois desapareceu, como também desapareceram, ao longo dos anos da ditadura militar, a bossa-nova, o cinema novo e o teatro do negro. Era o começo de uma ocupação do interior do Brasil que, talvez, se não houvesse os 21 anos do governo autoritário, hoje poderia ser uma das melhores cidades do país e do mundo. Brasília mal nasceu e foi violentada por uma elite, militar e civil, que ocupou por mais de 2 décadas os escaninhos do poder central com mão de ferro e uma cortina cor de chumbo, que serviu de anteparo para os escândalos da época, escondidos sob a censura à imprensa.

É muito diferente de hoje, quando vivemos sob uma aparente democracia e as barbaridades cometidas na capital da república vêm à tona cotidianamente, no noticiário dos jornais e revistas, nas rádios, nas TVs e nas telinhas dos computadores. Uma sucessão de casos de corrupção que habitam a opinião pública nos últimos anos culminou com o desfecho lamentável da prisão do governador de Brasília, José Carlos Arruda, seu afastamento e a eleição de um correligionário, numa eleição indireta que lembra os tempos das eleições indiretas no Congresso Nacional, que elegiam membros de apenas 2 partidos consentidos, depois da extinção dos demais partidos que existiram até 1964, ano do Golpe Militar. É sempre bom falar da história, que fica escondida nos arquivos e não vêm à luz do dia. Bom para sacudir a poeira e secar o mofo da política.

Quando eu trabalhava na Revista Visão, na sucursal do Rio de Janeiro, na época em que estavam retornando ao Brasil os exilados políticos, fui a primeira jornalista brasileira a entrevistar o fabuloso arquiteto Oscar Niemeyer. Lenda viva da arquitetura moderna mundial, Niemeyer foi uma lição para mim, como pessoa, quando me tornei colaboradora da revista Módulo, dirigida por ele. Mais tarde, nos reencontramos na inauguração do Sambódromo, a incrível Passarela do Samba, em 1984, feita por encomenda do visionário professor Darcy Ribeiro e bancada pelo então governador engenheiro Leonel Brizola. Niemeyer, um gênio! Mais que um arquiteto; um construtor de cenários magníficos onde os prédios falam por si mesmos e têm personalidades próprias como em Brasília, em Niterói (ver o Caminho Niemeyer), no Museu da América Latina, em São Paulo, na sede da editora Mondatori, em Milão, na Itália, enfim, em tantos lugares por onde deixou rastros de sua pegada criativa.

A genialidade de Oscar Niemeyer, hoje com mais de 100 anos, e do urbanista Lúcio Costa, que edificaram Brasília, não tem nada a ver com a situação atual de uma cidade que ficou carimbada com o selo da corrupção. Quando visitei pela primeira vez Brasília, eu tinha apenas 20 anos. Foi durante um Festival de Cinema, justo no momento em que eclodia a famosa Greve de Osasco, em 1968. O Movimento Estudantil fervia e o país todo se agitava, antes de recair sobre os brasileiros o famigerado AI-5. Brasília então parecia uma cidade futurista, com alguns prédios em construção, avenidas ainda cheias de barro, sem a cobertura dos belos jardins atuais, tinha um silêncio que eu não conhecia, vindo da balbúrdia do Rio de Janeiro, e um céu de brigadeiro, de um intenso azul que encantava. Brasília foi uma curiosidade da infância e uma paixão da adolescência que eu guardo com carinho. Como guardo as melhores lembranças do meu passado.

Capa O Saquá 120

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Artigo publicado na edição de maio
de 2010 do jornal O Saquá (edição 120)

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.