Pra tudo se acabar na quarta-feira

Missa da quarta-feira de cinzas com o Padre Zito na Capela de São João.

Por: Silênio Vignoli

“A gente trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Pra fazer a fantasia / De rei, ou de pirata, ou de jardineira / E tudo se acabar na quarta-feira”. Assim escreveu o poeta Vinícius de Moraes, em trecho de seu belo poema “Felicidade”, encantando o maestro Tom Jobim que o transformou em letra de samba, no primeiro grande sucesso internacional da dupla, após ser incluído como trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, extraído da peça “Orfeu da Conceição”, de autoria também do já famoso “poetinha”. O mesmo Vinícius teve outro poema musicado pelo não menos consagrado Carlinhos Lira, sob o título “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, onde começa dizendo: “Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais brincando feliz / E nos corações / Saudades e cinzas foi o que restou”.

Sendo freqüente tema de melodiosas canções, entoando letras em lindos versos poéticos, a quarta-feira de cinzas transmite a grandeza de sua simbologia, principalmente na vida dos cristãos. Adeus carne, do latim “carne vale”, significando, segundo o acólito David Bravo, que no Carnaval o consumo de carne é considerado lícito pela última vez, antes dos dias de jejum da Quaresma, iniciada na quarta-feira de cinzas, quando a Igreja Católica relembra que somos pó e ao pó retornaremos. A missa de quarta-feira, depois do carnaval, com imposição de cinzas na cabeça dos fiéis, é um gesto litúrgico indicando que somos pecadores em busca do arrependimento de nossas faltas.

Quaresma – palavra originária do latim “quadragésima” – designa o período de 40 dias que antecedem a principal comemoração do cristianismo que é a Ressurreição de Jesus Cristo, celebrada festivamente no Domingo de Páscoa, que este ano será no dia 4 de abril. Durante a Quaresma, as cruzes ficam cobertas de roxo até o final da liturgia da Sexta-feira Santa, enquanto as imagens até a celebração da Páscoa. David ressalta o sentido profundo desse ato de cobrir as imagens, fundamentado no luto pelo sofrimento de Cristo, sugerindo a reflexão dos fiéis ao contemplarem estes símbolos sagrados cobertos de roxo, sinalizando tristeza, dor, luto e penitência.

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Capa O Saquá 118Matéria publicada na edição de março
de 2010 do jornal O Saquá (edição 118)

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