Dilma e o lulismo contra o petismo na eleição presidencial

Opinião - Silênio Vignoli

Ao comemorar 30 anos de fundação, com quase oito no poder da República, o PT e seu único líder, o presidente Lula, apesar de todo o discurso esterilizado, ao longo desse tempo, não conseguiram ficar imunes ao clientelismo, ao fisiologismo e ao patrocínio de avassalador aparelhamento da máquina pública, adquirindo os vícios dos partidos tradicionais e também contribuindo para aumentar o perigoso descrédito da sociedade na política.

Sequer conseguiram impedir a crise do mensalão em 2005, marcado pela acusação do procurador-geral da República de “formação de quadrilha” para comprar votos dentro do Congresso Nacional em apoio ao presidente Lula que, apesar de ocupar o cargo mais alto da nação, “não sabia de nada”. Foram 40 pessoas, entre elas os principais dirigentes do PT, arroladas como réus num processo que tramita indolentemente no Supremo Tribunal Federal.

A candidatura da ministra Dilma Rousseff, saída da cartola de Lula, tem essa origem, segundo um dos principais líderes petistas, o ex-ministro da Justiça e candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, para quem o vazio político criado dentro do PT, após a crise do mensalão, teria aberto o caminho para uma decisão unilateral de Lula sem que o partido tivesse condições de reagir. A nomeação de Dilma como candidata permite várias abordagens. A mais sintomática é a da disputa entre o lulismo e o petismo que vai na contramão do discurso oficialista do PT, pois Dilma despontou como o símbolo do domínio absoluto que o presidente Lula exerce sobre a legenda petista.

O que muitos não imaginam é que Lula quer também impor ao PMDB (Michel Temer) o nome do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, como o vice de Dilma, para tranquilizar os investidores, principalmente diante da repercussão negativa da proposta de pesada taxação sobre grandes fortunas, e em outros setores da sociedade com as propostas de controle social dos meios de comunicação, da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, do fim da criminalização de movimentos como o MST e da criação da Comissão da Verdade para rever crimes da ditadura, constantes no Programa Nacional de Direitos Humanos, na resolução da Conferência Nacional de Comunicações e num programa de governo para a sua pré-candidata, Dilma, aprovado no Congresso do PT. Tendo o Meirelles como vice de Dilma, Lula procuraria tirar dos ombros da candidata chapa-branca aquele ranço do esquerdismo petista, diluindo-o com algumas gramas de pragmatismo. Em contrapartida, Lula garantiria ao PMDB acordos regionais favorecendo o partido em detrimento do PT, tudo focado no objetivo principal que é o de eleger Dilma sua sucessora.

O lulismo é fruto exclusivo da incompetência petista que nunca conseguiu produzir lideranças. A única que pintou foi assimilada do movimento sindical, tanto que, apesar do desgaste de perder sucessivas eleições, Lula já era sempre o candidato da próxima. Até que conseguiu eleger-se com a Carta ao Povo Brasileiro, prometendo não dar calote nas dívidas interna e externa, não ser raivoso com os latifundiários e obedecer aos parâmetros da economia capitalista, inclusive ajudando na filantropia em circunstâncias de miserabilidade como a do Haiti. E aí renasceu um Lula pragmático e metamorfósico, fertilizando as sementes do lulismo. Como agora, constitucionalmente, não dá mais, o jeito é recorrer a dois técnicos: uma brizolista gaúcha na cabeça da chapa e, tudo se encaminha para isso, um fundamentalista tucano, da confiança do grande capital especulativo, como vice.

Capa O Saquá 118Artigo publicado na edição de março
de 2010 do jornal O Saquá (edição 118)

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.