Vilatur entre as lagoas e o mar

Os encantos de Vilatur, bairro situado na APA da Massambaba, entre as lagoas Vermelha e Jacarepiá

Vilatur é um bairro lindo, porém pouco conhecido pelos turistas que visitam Saquarema. Mas aos poucos vem sendo descoberto pelos veranistas que frequentam principalmente a praia, no verão, e ficam hospedados em pousadas ou casas alugadas que mais tarde acabam se tornando suas segundas moradias. Oriundo do grande loteamento Ville Tour, lançado há 30 anos, numa área que perteceu à antiga fazenda de Ipitangas, Vilatur é um dos locais mais aprazíveis do município e uma área de expansão turística por natureza.

Bairro litorâneo que pertence ao segundo distrito de Saquarema, Bacaxá, Vilatur está situado entre a Lagoa de Jacarepiá, única lagoa doce da Região dos Lagos, e a Lagoa Vermelha, a mais salina, em plena APA (Área de Preservação Ambiental) da Massambaba. Criado no final dos anos 70, o loteamento foi considerado na época um dos maiores empreendimentos imobiliários da Região dos Lagos, logo após a inauguração da Ponte Rio-Niterói. Destacava-se, então, pelo excelente traçado de suas ruas e avenidas, formadas por lotes de 600 a 900 m², com praças e áreas destinados à implantação de um camping, brinquedos, churrasqueira e instalação de serviços públicos.

A belíssima praia de Vilatur, em plena APA da Massambaba, com areias branquíssimas e a vegetação nativa, com as batateiras em flor. Foto: Ivan Mattos.

A belíssima praia de Vilatur, em plena APA da Massambaba, com areias branquíssimas e a vegetação nativa, com as batateiras em flor. Foto: Ivan Mattos.

Um lugar a ser preservado

Embora o esperado processo de urbanização não tenha sido concretizado totalmente até hoje e até o asfalto na principal via, a Avenida Nova Saquarema, que liga o bairro à Rodovia Amaral Peixoto tenha chegado tardiamente e só contemplou uma das pistas, Vilatur tornou-se um bairro atrativo para a classe média, principalmente vinda do Rio de Janeiro, em busca de um ambiente saudável. E isto é o que não falta em Vilatur. Em 1986, o Governo do Estado decretou uma área de preservação ambiental que constitui hoje a chamada Reserva de Vilatur, onde se encontram espécies raras da Mata Atlântica, principalmente da restinga, com suas orquídeas e bromélias nativas e o raríssimo mico-leão-dourado. Esta área, embora cercada e sobre proteção oficial, vive sendo agredida por vândalos, invasão de gado, incêndios, furtos de plantas e até desova de automóveis.

Testemunha de todas estas mudanças no bairro, Jair Antonio de Amorim, o popular Jajá, pastorava bois em Vilatur, junto com seu pai, Júlio Amorim, na época da Fazenda Ipitangas. Nascido e criado em Bacaxá, Jajá conta que vinha de Itaúna, onde ficava o curral, a pé. Hoje, mantém com a família o famoso Bar do Jajá, na beira da praia, onde serve peixe fresquinho, pescado na hora.

Outro pioneiro do bairro é o Ivan, que começou a acampar em Vilatur em 1979. Em 1985, já casado com Anamaria, comprou um terreno que curte até hoje e onde constrói aos poucos sua segunda residência. No local, mantém cuidadosamente um canteiro de mudas de casuarina que planta na praia e coleciona uma série de fotografias de Vilatur na internet, no www.panoramio.com/user/901690, com as belezas naturais do balneário. Junto com o amigo Leo e sua esposa Cláudia, mantenedores de vários sites, entre eles o www.vilaturonline.com.br, Ivan tem inúmeras idéias de como melhorar o bairro e atrair turistas, incluindo a demarcação de uma área para uma praia de naturismo. Assim como Ivan, Leo é mais um apaixonado pelo bairro.

“Eu freqüento Vilatur desde 1982, quando meu pai comprou um terreno. Nesta época eu ia somente no carnaval. Desde então fui me apaixonando pelo lugar, até que em 1995 consegui comprar o meu próprio terreno, onde tenho a minha casa”, conta Leo. Ambos analistas de sistema (Ivan trabalha na Embratel e Leo na Petobras), hoje eles são os maiores divulgadores do bairro.

A misteriosa Lagoa de Jacarepiá, única de água doce na Região dos Lagos que já secou 2 vezes e tem areias movediças. Foto: Edimilson Soares.

A misteriosa Lagoa de Jacarepiá, única de água doce na Região dos Lagos que já secou 2 vezes e tem areias movediças. Foto: Edimilson Soares.

Um sonho de prosperidade

Ativo morador de Vilatur e profundo conhecedor da história do bairro, o Dr. Mário Machado, dono da imobiliária Almar, lembra o passado da fazenda Ipitangas, do Seu Joaquim, um homem muito rico, que produzia laranja, caju, fruta do conde, limão e outras frutas, antes da Melgil, uma das maiores loteadoras do estado, iniciar o loteamento Ville Tour, nome em francês que acabou aportu-guesado, virando Vilatur.

“O nome Melgil foi extraído das iniciais dos nomes de seus dois sócios, Melchiades e Gilberto”, explica o Dr. Mário, que também é dono do restaurante Estrela do Mar, que administra junto com toda a família, a esposa Sônia, professora da FAETEC, que trabalha no Instituto de Educação, no Rio de Janeiro, as filhas Daniela e Viviane e o genro Nilson. Com uma bela varanda na beira da praia, é um dos points mais badalados de Vilatur, ao lado do bar e restaurante Jubarte e do Bar do Belar, em frente à praia.

“O sonho da Melgil era que Vilatur se tornasse o local de maior prosperidade em Saquarema”, continua o Dr. Mário, que admite que o projeto da Melgil acabou não se efetivando e hoje algumas ruas estão cheias de buracos e, em alguns trechos, o mato até impede a entrada para os lotes. “Deveria ser feito um trabalho conjunto entre a Prefeitura e a Associação de Moradores, uma parceria, para levantar os problemas da localidade” considera o Dr. Mário, que ainda aponta a falta de iluminação como um dos pontos críticos do bairro, além da necessidade de melhoria do transporte público.

1) Carlinhos com um osso de baleia. 2) O diretor teatral Guti Fraga com seu elenco. 3) Jajá com a filha e o neto. 4) A família do Dr. Mário, da Almar e do Restaurante Estrela do Mar. 5) Cláudia, Leo, Ivan e Anamaria, grandes divulgadores de Vilatur. 6) O empresário Bradock, um dos pio-neiros do bairro. 7) Tânia e Lancaster, da Pousada e Restaurante Lancaster, em frente ao mar. Fotos: Edimilson Soares.

1) Carlinhos com um osso de baleia. 2) O diretor teatral Guti Fraga com seu elenco. 3) Jajá com a filha e o neto. 4) A família do Dr. Mário, da Almar e do Restaurante Estrela do Mar. 5) Cláudia, Leo, Ivan e Anamaria, grandes divulgadores de Vilatur. 6) O empresário Bradock, um dos pio-neiros do bairro. 7) Tânia e Lancaster, da Pousada e Restaurante Lancaster, em frente ao mar. Fotos: Edimilson Soares.

Nova fronteira turística

Com cerca de 3 mil moradias, Vilatur tem um posto de saúde, inaugurado em 2007, mas que só funciona nos dias de semana e sem ambulância para transportar os pacientes em estado grave e emergências em geral. Duas pequenas escolas, uma inaugurada em 1996 e outra em 2003, atendem à comunidade, o que é insuficiente para a demanda local. O bairro tem apenas uma farmácia, poucas lojas de material de construção, um armarinho, uma sorveteria, uma padaria, um salão de beleza e vários bares. O pequeno comércio do bairro ainda não atende a todas as necessidades dos moradores e veranistas que dobram a população no verão, mas está em plena fase de expansão e já começa a se consolidar nas principais ruas e avenidas.

Um dos maiores comerciantes locais é Ricardo Bradock, dono de pousada, imobiliária, bazar e loja de conveniências. Há 31 anos, Bradock conheceu Vilatur, se apaixonou pelo lugar; passou 10 anos acampando na praia, em frente ao bar do Jajá, antes de se estabelecer definitivamente em sua primeira casa, onde nasceram os seus 3 filhos. Autêntico empreendedor, Bradock construiu um patrimônio e é um dos grandes empregadores da localidade.

Outro amante confesso de Vilatur, o premiadíssimo diretor teatral, Guti Fraga, do grupo de teatro Nós do Morro, do Vidigal, no Rio de Janeiro, e da Casa do Nós, de Bacaxá, em Saquarema, trouxe toda a família para investir em terrenos e casas no bairro. Assim, conseguiu manter um ambiente familiar numa espécie de sítio, com árvores frutíferas, como as de sua infância em Goiás. Encantado com as belezas naturais de Vilatur, não dispensa os fins de semana na praia, onde curte uma cerveja gelada, o papo com os amigos e o por do sol.

“Quero fazer aqui o que o Paschoal Carlos Magno fez em Arcozelo, em Paty do Alferes: um espaço teatral, para reunir pessoas, promover workshops, fazer apresentações, estimular idéias”, sonha Guti, que teve como mestres o diretor Domingos de Oliveira e a atriz Marília Pera. A Casa do Nós, um projeto que começou como um projeto do SESC e se consolidou em Bacaxá, acaba de se tornar um Ponto de Cultura, com apoio e verba da Secretaria Estadual de Cultura. “O meu projeto hoje é incendiar a Casa do Nós”, diz Guti, em sentido figurado. “Quero ampliar as oportunidades do acesso à arte”, explica ele.

Por ser distante de Bacaxá e também do centro de Saquarema, Vilatur manteve uma quietude que atrai as pessoas que buscam descanso e contato com a natureza. Com uma Associação de Moradores em fase de reestruturação, uma Associação de Amigos da Lagoa e várias igrejas, sendo uma católica, que promove no inverno a tradicional festa de São João, Vilatur é um paraíso ainda não desvendado totalmente. Com um charme discreto que cativa os visitantes, é a próxima fronteira do turismo em Saquarema, com forte apelo ambiental e 3 km de praia aberta, por onde passam baleias, no caminho das águas quentes do oceano, onde terão seus bebês, lá para os lados da Bahia.

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