O bilau de Papai Noel e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

O bilau de Papai Noel

Gerônimo, 29 anos, mineiro residente no Guarany, vestiu apenas a parte de cima da roupa de Papai Noel, saiu com a bunda de fora no quintal e mostrou o saco e o presentão para a vizinha e acrescentou: “se você quiser o presente pode ficar bem maior”.

Romira, 22 anos, não gostou do que viu e contou para o marido, o Robinho Magrelo, 21 anos, que foi tomar satisfações e, além de tomar um porrão no olho direito, recebeu como resposta um “aqui pro ocê. Hó!”, berrou Gerônimo enquanto balançava o presentão pro marido ofendido.

Insatisfeito e aproveitando a data chamou Robinho de “cabeça de rena de trenó”. Dois dias depois o Papai Noel do Guarany tomou três tiros na testa. Robinho confessou o crime e foi preso. Romira, por ser tagarela, passou o natal chorando, dura, seca e arreganhada.

Esmulambaram a boca da cantora

Esganiçada, desentoada e entupida, Quitéria, do Boqueirão, 58 anos, cantava o dia inteiro e à noite também. A cachorrada uivava e a vizinhança esbravejava e xingava, enquanto ela, só no rebolado estilo rala bucho, se esgoelava no baião e nas cantigas de vida de corno da dupla Alvarenga e Ranchinho. Pra sacanear os reclamantes, mijava em pé no terreiro, espalhando a maior catingueira pela vizinhança. Para sossego da noite de natal, alguém devastou a cara da cantora com tamanha pedrada que Quitéria deu entrada no hospital com oito dentes quebrados, nariz fraturado, o lábio inferior faltando um pedaço e um longo corte no superior que, segundo os médicos, vai necessitar de restauro plástico. O moço que deu a pedrada não teve o nome revelado, mas que todo mundo sabe quem foi, ganhou montes de cartões de natal e muitos presentes natalinos dos vizinhos agradecidos.

A operação do Dr. Lapomba

Empresária bonita e bem sucedida, Dioneida, 36 anos, casarão em Itaúna e carro novo, de olho no garotão surfista procurou o cirurgião plástico Hernandes Costabrava de Alvares, cabaceiro conhecido como Dr. LaPomba, foragido das justiças mexicana e panamenha, com consultório em Niterói, operou a perereca, saiu virgem da clínica e voltou para Saquarema. O inchaço e a coceira foram quase imediatos. “Soca folha de saião com alfavaca gelada e bota em cima do beiço”, aconselhou a empregada. “Faz banho de acento na bacia com gemedeira benta e pinhão do gargalo roxo”, receitou uma benzedeira do Mombaça. “Faz cataplasma de óleo de pariparoba com sumo de babaqueira santa”, ensinou Benzina Parteira, íntima conhecedora da área afetada. “Lambuza com pomada de lasqueira de vaca e cobre com emplasto de fumo de rolo”, falou do Russa, remedeira de erva que curou a bunda destroncada de um jogador do Saquarema que levou um chute no rabo. Dione está internada em estado gravíssimo, com infecção generalizada. Dr. LaPomba evadiu-se e não foi encontrado pela polícia, mas o cheque no valor de quinze mil pagos pela cliente ao “cirurgião” foi descontado.

Arrolhado com cocaína

Para não cumprir a ordem de “ficar peladinho e mostrar o buiaquinho” na delegacia, o venezuelano Joselito Cuevas Fuentes, 22 anos, esperou no xadrez até que o seu irmão tradutor chegou, lhe aplicou uma tão ajeitada porrada no centro da cara que o acusado imediatamente aprendeu a língua do descobridor Cabral . Do “buiaquinho” saia um barbante que, carinhosamente puxado, rebocou de dentro das tripas do traficante um “pingole´ plástico”, com vinte e dois centímetros de comprimento, todo lambuzado com um lubrificante conhecido como KY, fabricado com finalidade específica, contendo trezentos e vinte e duas gramas de cocaína pura. Segundo Joselito, o doloroso ritual de introdução foi praticado na Favela do Macaco Molhado, no Rio, e o produto seria entregue em um endereço em Búzios, que lhe seria passado por telefone público em Saquarema, onde ele seria “desentalado da carga” que, depois de misturada, podia chegar a um quilo da droga. Joselito, todo arrombado e sem receber os mil e duzentos que lhe foram oferecidos pelo transporte, passou o natal duro, seco e arreganhado no xadrez.

Capinha O Saquá 116Casos publicados na edição de janeiro de 2010
do jornal O Saquá (edição 116)

Compartilhe!

Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.