O roto (ou o rato) não vai poder falar do esfarrapado

Opinião - Silênio Vignoli

Mais um escândalo de corrupção, com requintes da promiscuidade política tupiniquim, desta vez envolveu o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Chamado de Mensalão do DEM, partido pelo qual foi eleito Arruda, é tão escabroso quanto o do PT, o do PSDB mineiro e, mais recentemente, o que bombardeou o presidente do senado, José Sarney, do PMDB. Assim, cada partido  incorpora seu mensalão, levando-nos a decepcionante impressão de que são todos iguais, inclusive o PT que antes de chegar ao Palácio do Planalto tinha como principal bandeira a ética na política.

Segundo Fabiano Angélico, diretor de projetos da Transparência Brasil, nos três mensalões (PT, PSDB e DEM) o dinheiro sujo foi fertilizado por empresas fornecedoras do poder público ou de estatais. Já o presidente da Transparência Brasil, Cláudio Abramo, ressalta que uma das causas do acintoso desvio de dinheiro é o excesso de cargos em comissão da máquina pública. A quantidade de cargos em comissão é assustadoramente desproporcional ao que acontece em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, o presidente da República, nomeia pessoas para o preenchimento de 900 cargos comissionados. No Brasil, o presidente nomeia mais de 60 mil cargos.

O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, diz que em toda eleição há risco de Caixa 2 porque “isso é inerente ao modelo de financiamento de campanha eleitoral”. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, José Eduardo Dutra foi taxativo: “O fato da existência de Caixa 2 é notório e comprovado”. E acrescentou: “Quem com o mensalão fere, com o mensalão será ferido”. Ou seja, que ninguém denuncie ninguém. É a vingança de quem foi ferido no primeiro mensalão. Pelo visto, a ética está impedida de subir nos palanques na eleição deste ano: você não mexe com o meu mensalão que eu não mexo com o seu. Como afirma Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp: “o roto não pode falar do esfarrapado”.

A descoberta de mais um mensalão recoloca a questão da impunidade na agenda do país. O balanço estatístico dos processos abertos contra políticos e autoridades confirma a “benevolência” com que os poderosos são tratados. Nos 130 processos abertos no Supremo Tribunal Federal (STF) nunca houve punição: 10% (13 processos) prescreveram por lerdeza na tramitação e 4,6 (6 processos) resultaram em absolvição. A maioria foi devolvida para instâncias inferiores… É inadiável a adoção de medidas para acabar com o excesso de recursos que prorrogam os julgamentos até a prescrição. Sempre defendidos por bons profissionais, os criminosos do colarinho branco desfrutam de um punhado de sutilezas advocatícias até fugirem pela porta da prescrição. No processo do mensalão petista, instaurado no STF, foram listadas 641 testemunhas de defesa, incluindo muitas residentes no exterior, para serem ouvidas por carta rogatória, com a nítida finalidade de retardar o julgamento, talvez até a prescrição. Se até agosto de 2011 o julgamento não acontecer, os 25 acusados por formação de quadrilha, entre eles o ex-ministro José Dirceu e o publicitário Marcos Valério, ficarão livres de punição. Como a pena, nesse caso, é de 1 a 3 anos e os réus são primários, a tendência é de receberem a pena mínima, situação que configura a prescrição após os 4 anos da abertura do processo, que data de agosto de 2007.

Como se vê, não resta aos brasileiros honestos outra alternativa que não seja engolir o panetone que o diabo amassou! E, com um índice comparável ao da pesquisa de popularidade do presidente Lula, a cueca foi escolhida como símbolo da corrupção nacional. Gozadores de plantão explicam que o aumento na freqüência dos políticos em consultórios de urologistas não é preocupação com o exame preventivo do câncer de próstata, mas saber se existe algum tipo de cirurgia de redução do saco, para caber mais dinheiro na cueca.

Capinha O Saquá 116Artigo publicado na edição de janeiro de 2010 do jornal O Saquá (edição 116)

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.