O corno do apagão e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

O corno do apagão

Erivelton, 25 anos, caseiro jardineiro macho, trabalhava de sunga e sem camisa mostrando o tanquinho sarado e cheio de curvas. Rogéria, a patroa, 39 anos, doidinha pra futucar a jardineira, aproveitou o apagão mostrou e pediu ao caseiro pra dar uma roçada no gramadinho, mas foi flagrada exatamente no momento em que Erivelton se preparava para engatar o cabo do roçador na tomada. Com uma lanterna gigante na mão, Felipe, 40 anos, residente em Jaconé, marido traído inconformado, iluminou a sacanagem e saiu lanternando os dois na porrada. “Veltinho” chegou no posto de emergência com o saco da hérnia todo esbagaçado e um profundo corte no lado esquerdo da bunda, adquirido quando voou, no escuro, por sobre uma cerca de arame farpado. Rogéria, toda roxa lanhada e arregaçada, deu entrada no hospital com a orelha direita decepada e pendurada no brinco. Felipe, preso  por dupla agressão, vai responder  o processo em liberdade.

Manoela ou Manolo

Manoela, 24 anos, esposa de Cândido, o Candinho, de 32, residentes em Vilatur, arranjou uma namorada e esbravejou na varanda da birosca que o macho da casa era ela. Candinho, todo afagoso e langanhento, disse que isso ia passar e que eles voltariam a ser como antigamente, mas Manoela, que já tinha tomado um litrão de chá de cipó cabeludo, estava criando barba e queria ser chamada de Manolo, expulsou o marido de casa e levou duas garotas pra morar no cafofo.

Meio macumbeiro, Candinho arriou um despacho de bode preto, sem cabeça, no portão da residência e conjurou satã no fandango da vingança. A rua estava cheia quando Manoela, ou melhor, Manolo e as namoradas, desterraram Cândido na porrada. Durante o desbabacamento voou, pra todo lado, vela roxa de sete dias, farofa, um samburá de jamelão do cemitério, pedaços da coleção de LPs de Jackson do Pandeiro e Almira, e o que restou da estátua de gesso do capeta que, durante o barraco, virou pau de cacete.  Até o Exu da mãe de Candinho entrou na porrada.

O que até hoje ninguém sabe foi de onde saiu à bala que atravessou o umbigo de Manoela e saiu na bunda.  A vítima já chegou morta no Posto de Emergência e a perícia garantiu que foram dois tiros de calibre 45.

Baixaria no velório

Eduarda, 24 anos, gostava tanto de fazer amor no gramado do campo de aviação que recebeu o sugestivo apelido de “Eduarda teco-teco”. Fez tantos pousos, decolagens, malabarismos e piruetas que Jorge, um dos tantos namorados, ficou seco, esturricado e despelancado de tanto sexo. Tuberculoso, morreu amarelo, transparente, cosido na febre amarela.

Na cerimônia fúnebre, na Capela Velório, quando Eduarda ia começar a se debulhar num caminhão de lágrimas falsas, a mãe do morto passou a mão num castiçal, com vela acesa e tudo mais, e arregaçou tamanha porrada na testa da lacrimosa, que o defunto que era amarelo ficou todo pintado de vermelho. O enterro foi um fuzuê, com Polícia Civil, Militar, gente presa, xingamentos, deu até Corpo de Bombeiros pra apagar o princípio de incêndio provocado pela vela.

Eduarda está internada na UTI, em coma induzida, devido ao extenso e grave traumatismo craniano, tendo sido necessário ato cirúrgico para correção do trauma.

Babados e berinjelas

Aroldo, 19 anos, municipalmente conhecido como Kássia Kristel, do Guarany, roubou uma moto velha, desmontou, vendeu as peças e com a grana comprou uma peruca num camelô da Rua Uruguaiana, no Rio. O comerciante, dono de uma barraca conhecida na comunidade gay como “Koizas de Viado”, jurou que os cabelos eram loiros naturais e podiam receber qualquer tipo de tratamento dado aos pelos humanos. Muito da espetaculosa, “Kassia” resolveu fazer cachos encaracolados e encheu a cabeleira de reflexos furtacor com nuances lilás berinjela. Aí ocorreu à tragédia. O cabelo era falso e a peruca da bicha virou um ninho de gambá no sapezal. Ofendida e lesada, Kássia Kristel Guarany partiu para a Rua Uruguaiana e a porrada choveu feia no camelódromo, continuou e ainda não acabou em Saquarema, onde Aroldo acusou o filho do camelô de ter uma oficina de desmanche de carros roubados e de comprar peças de motos furtadas, inclusive as que foram vendidas por ele, e que, apesar de ser casado, é seu caso há mais de seis anos.

A vingança das pros

Euzébio, cafetão, 48 anos, residente em Maricá, espalhou uma dúzia de mulheres nas praias da Vila e de Itaúna e “oficializou” a comercialização, tendo prostitutas como matéria prima do negócio ilícito que resolveu explorar em Saquarema. As moçoilas cobravam pelo trabalho, mas como não estavam recebendo a parte que lhes cabia resolveram se vingar e durante uma semana misturaram cerol de pipa na comida do cafetão. Euzébio, quase explodindo com a barriga inchada e cagando sangue, não morreu de vidro ralado nas tripas, mas dos cinco tiros que recebeu no miolo do ouvido, durante uma desavença com traficantes do Morro do Cavalão, em Niterói, onde comprou sessenta sacolés de cocaína colombiana, mas não pagou, e que, segundo as cerolzeiras, foram vendidos em Saquarema durante o feriadão de finados. Uma das moças, possivelmente a que socava os cacos de vidro, disse que mesmo depois de morto Euzébio continuou fedorento e se borrando, “todo breado dentro do caixão”.

Capinha O Saquá 115Artigo publicado na edição de dezembro
de 2009 do jornal O Saquá (edição 115)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.