Uma questão de cidadania

O “Mudo” Francisco e a vereadora Taéta. Fotos: Edimilson Soares.

A vereadora Taéta conhece o “Mudo” há mais de 12 anos, sempre no seu silêncio, mas sorrindo. Na Padaria da Ponte, ele também é muito conhecido. Aparentando ter entre 40 e 45 anos, o “Mudo” não tem nome, nem carteira de identidade, ninguém sabe de onde veio e como veio morar aqui. Vivendo de favor num quartinho no terreno do seu Enéas, na beira da Lagoa de Saquarema, o “Mudo” não incomoda ninguém; sabe consertar sua bicicleta e monta e desmonta um liquidificador.

“Ele é muito observador, mas só fala por gesto”, explica Seu Enéas, lembrando que ele apareceu um dia onde hoje é a Rodoviária. A esposa do Seu Enéas, Wilma, passava por lá, dava comida para ele, trazia para o Bar do Enéas para tomar café até que um dia, há 15 anos, ele levou a mochila para lá e ficou até hoje. Preocupada com a situação atual e o futuro do “Mudinho”, Taéta resolveu abrir um processo para solicitar no Fórum um documento de identidade para ele. Porque hoje, legalmente ele não existe, como tantos brasileiros perdidos por aí.

“O nome que vamos dar é Francisco, porque um dia ele rabiscou este nome num papel”, explica Taéta. Segundo a filha do Seu Enéas, Zeti, o “Mudinho” é uma boa criatura, nunca ficou doente, nem deu trabalho para a família.

“Uma vez a minha mãe viu ele escrevendo Francisco”, se recorda Zeti. “Acho que alguém tentou ensinar para ele e ele aprendeu a escrever esse nome”, diz Zeti que é professora da rede pública de ensino. O “Mudo” não é uma pessoa arredia e nem parece triste. Pelo contrário, sorri, mostra a bicicleta e posa para a fotografia, com a inocência de um anjo que um dia posou em Saquarema e nunca mais saiu daqui.

Capinha O Saquá 115Artigo publicado na edição de dezembro
de 2009 do jornal O Saquá (edição 115)

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