A cueca do “tenente” e outros casos

Plantão de Polícia - AG Marinho

A cueca do “tenente”

Os Sargentos Nigro e Genilson, Cabo Elvis e Soldado Rodrigo, da Polícia Militar de Saquarema, desconfiados da falta de postura oficial do “Tenente Thiago”, que morava no Jardim, acharam que havia alguma coisa fajuta no refestelado cidadão. Fez continência com a mão errada e não entendeu chongas dos termos policiais usados em diálogos entre PMs. Esqueceu em casa os documentos dele e do carro, um Chevrolet Celta, sem placas, roubado em São Paulo, mas afirmou estar lotado no 18º Batalhão da PM. A farda, falso kit completo comprado no Paraguai, tinha condecorações, estrelas e algemas.  Mas o que mais chamou a atenção da polícia foi quando, na delegacia, se viu obrigado a ficar pelado e entregar o uniforme, exibir e também devolver a cueca azul PM, cujo modelito apresentava um farto e volumoso enchimento de pano na parte da frente, para dar um ar fashion de superdotado ao “Tenente”, de quem até o bilau era falso.

A última trepada

William – segundo a polícia esse nome é falso – usava qualquer coisa pra fazer a cabeça. Fazia e ficava Max Machão. Dava tiro na boca da namorada dentro do shopping, furtava, matava e roubava, especialmente moto, tudo na certeza da impunidade e na maior cara de pau. Na véspera do último feriadão, perambulava na madruga pelos bares e ruas menos iluminadas de Itaúna, quando viu a sua próxima vítima entrando em casa com a moto dos seus sonhos. Deu um tempo, incorporou o gatuno, esperou a luz apagar e o morador roncar. Pistola na cintura trepou no muro. Barriga pra baixo, cabeça pra fora, pernas e bunda já penduradas pra dentro da casa. Nem chegou saltar. O atirador errou o alvo principal, mas acertou um monte de tiros em volta do furingo do assaltante, que morreu trepado estrebuchando em cima do muro, com o bilau cravado no sensor do alarme silencioso que sacudiu o policial civil, dono da casa e da moto na qual William tentou, mas não conseguiu dar uma trepadinha.

“Bicheira” e a coisa dura

Sua Majestade, égua de puro sangue inglês, campioníssima da raça, criada em baia acarpetada e com ar condicionado, propriedade do mais famoso e requintado haras de Saquarema, tinha como vizinho um pangaré puxador de carroça de bagulho, carrapateiro e comedor de tiririca que pastava num terreno baldio existente ao lado.  Certa noite, Sua Majestade, cheia de fogo na tarraqueta, pulou a cerca e se entregou as delícias do estupro permitido, delirante, arreganhada e relinchante. Dois meses se passaram para que o dono do haras descobrisse que Sua Majestade, que tinha até segurança 24 horas, estava prenha. As câmeras de vídeo deduraram o autor que, condenado à morte, teve o bilau decepado com um facão, “por ordem do patrão”, pelo capataz do haras, conhecido como Marreta.  O cavalo, que o dono e o povo chamavam de “Bicheira”, morreu despirocado, estrebuchando, com hemorragia peniana, olhando para o piru decepado e pendurado no arame farpado da cerca.  O dono da égua, o italiano Mastroianni, que não sabia que bicheira era adorado pela comunidade, avisado de que o bicho pegou feio, se mandou para Nápoles. O corpo do capataz Marreta, assassinado a pauladas, foi encontrado pela polícia, dentro de um valão, todo arregaçado e parcialmente comido por bicho de moscas. Peritos do IML garantem que aquela coisa esquisita e dura que estava sobre o peito do cadáver era o piru de “Bicheira”.

O zoológico da Rezinga

Alfredo, 53 anos, tinha um só testículo, um gato hipertenso diabético e mal humorado e também um papagaio que sabia de cor e dizia salteados vinte e sete palavrões do mais baixo calão. O cachorro da família era banguelo e sofria de gonorréia crônica. No terreiro, um galo brocha que, cego e rouco capengava no poleiro. A esposa era chamada de “Dona Piranha” e as três filhas eram conhecidas na comunidade da Rezinga, como “as irmãs galinhas”. Alfredo tem um filho, Julião, 28 anos, caminhoneiro de carreta trucada e ponta esquerda, dos “bão”, de time de futebol de várzea.  Durante uma discussão na Birosca do Tanguinha, Fidêncio Pinguço chamou Alfredo de “corno do zoológico” e concluiu afirmando: “ Sua mulher é piranha, as filhas galinhas, Julião é tão viado que foi apelidado de bigorna, porque gosta mesmo e de amassar um ferro, e você não fica atrás, porque corno também tem chifres, portanto, também é bicho”.  Fidêncio, 29 anos, morreu na porta da barraca com a cabeça arrombada e os miolos espalhados, depois de ter tomado uma série de porradas com uma alavanca de ferro que Julião usava para consertar o pneu do caminhão. Alfredo, acusado de homicídio doloso, cometido diante de várias testemunhas, foi preso em flagrante e, pelo que se sabe, vai cuidar de cobra grossa na cadeia.

Mau exemplo de alto nível

Célio de Otto, 44 anos, turista classe alta, pessoa culta e esclarecida, frequentador de Jaconé, inconformado por ter apenas desmoronado a mulher na porrada e sapecado o caseiro no cacete, chamou o pai e o irmão da esposa de “viados destrambelhados”. A mulher, para evitar escândalo maior, relevou e não quis prestar queixa, porém o sogro e o cunhado registraram o ocorrido. Em sua defesa Otto afirmou: “Se o Governador do Mato Grosso do Sul André Puttinelli, pode ir pra televisão, em horário nobre, e dizer com todas as letras que o Ministro do Meio Ambiente é viado e fumador de maconha e ainda afirmar que o estupraria em praça pública e nada aconteceu, por que eu, no reservado quintal da minha casa, não posso dizer o que disse desses dois João Ninguém sem ser denunciado”?

Pelados na gruta

Ronam, 22 anos e Ewertom de 23, um casal de “machos” declarados e proprietários de uma bela casa em Itaúna, mas residentes em Angra dos Reis, resolveram renovar votos de amor eterno trocando mimos de afagos aos pés da gruta, no morro da igreja. Pelados, algemaram-se e, entre beijos, roçavam os peitos cabeludos prometendo fidelidade eterna ao som do mar. De repente, uma onda silenciosa e ciumenta afogou o momento de ternura furtando as roupas de banho e com elas a chave das algemas. Grudados, bundas ao vento e pentelhos ao luar, povo vaiando, polícia chegando e moradores gritando: “raspa o rabo deles”. Ewertom protestou. Ronam, desesperado, pedia uma toalha, enquanto o outro xingava o povo e balançava os bagos pros vaiantes. Uma bicha macumbeira e muito amiga socorreu a dupla e tentou, aos berros, convencer a polícia que estavam cumprindo obrigação de santo e que o ato de confirmação foi demandado pelo Exu das Treze Varas e só podia ser realizado com os dois com a bunda virada pra lua. A polícia conduziu o “casal” enrolado em cangas indianas e ao som de vaias, palavrões, choromingos e maledicências. Leôncio, conhecido como Leleo, serralheiro de Bacaxá, cobrou 200 pratas para separar com maçarico e serrar as algemas, confessando em seguida: “levei cantadas e oferta de gorda gorjeta. Fiquei com as duas”.

Social

Jovems oficial da Polícia Militar, porém com grande experiência de polícia e comando, o Tenente Lima e Silva assumiu o comando da 4º Companhia da Polícia Militar de Saquarema. O Tenente Jeimilson é o sub-comandante e ambos terão sob sua responsabilidade uma guarnição com aproximadamente 100 homens, entre Soldados, Cabos e Sargentos, encarregados do policiamento ostensivo  que cobre  a área total do município de Saquarema.

Capinha O Saquá 114Artigo publicado na edição de novembro
de 2009 do jornal O Saquá (edição 114)

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.